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A ‘Outra Face’ da Noite da Beleza Negra

Larissa Oliveira, Deusa do Ébano 2016 | Foto: Fafá M. Araújo/Divulgação

A Noite da Beleza Negra, sob o ponto de vista dos impactos na vida das mulheres que realizaram o sonho de conduzir os integrantes do bloco afro Ilê Aiyê durante os desfiles no carnaval e de representar a entidade, é o que propõe o documentário ‘Outra Face’.

A exibição nesta terça(25), às 14h, no auditório da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba), em Ondina, é resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Val Benvindo que dirige, produz e roteiriza o documentário com e Iasmim Sobral que atua como assistente nas mesmas funções.

“Escolhi o auditório, pois quero muito que as pessoas estejam lá. Aquele espaço também é nosso. A ideia é encher o auditório de gente preta na tela e no auditório”, afirma Val. O trabalho é orientado pelo doutor em comunicação e cultura contemporâneas e professor da Ufba, Guilherme Maia, e a banca é formada pela mestra em estudo de linguagens pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb) e educadora para relações étnico-raciais e de gênero, Lindinalva Barbosa, e a mestre em estudos étnicos e africanos e professora substituta da Ufba, Cleidiana Ramos.

A vontade de contar essas histórias foi natural na trajetória de Val Benvindo que é neta de Hilda Dias dos Santos, Mãe Hilda Jitolu (1923-2009) que comandou o Ilê Axé Jitolu, orientou todo o trabalho realizado pela entidade desde a fundação do bloco até as ações sociais e tem um bloco do documentário em sua homenagem.

“Nunca tive nenhum problema com relação a ser preta, ter cabelo crespo. O Ilê me formou, a Beleza Negra me formou. Cresci vendo as mulheres pretas se achando rainhas, entendendo que elas são bonitas, são deusas. Conto a história das meninas, o que as motivou, o que elas acham que mudou em suas vidas nos anos que seguiram”, explica.

Apesar da escolha pelo jornalismo, ela sempre lidou com produção cultural, sobretudo, na Noite da Beleza Negra onde atua desde 2009. Nesse evento cresceu a paixão pela profissão aliada ao fortalecimento da identificação e aceitação da sua identidade.  Val também produtora do Coletivo Criativo N.

Val Benvindo

Val Benvindo

“Comecei a perceber que tinha uma mudança na vida das meninas, de enxergar o outro, o interesse de estudar, de posicionamento mesmo, depois de passar pelo concurso. Quero mostrar os efeitos desse evento para além dos palcos. Para que outras mulheres e meninas vejam essa transformação”, conta Val Benvindo.

Um dos casos onde esse aspecto fica mais evidente é o de Daiana Ribeiro (Rainha 2013), que teve a relação com a mãe transformada quando ganhou o concurso. “Fico bem emocionada quando assisto. A mãe dela é evangélica e não queira que ela participasse. Ela achou que a mãe dela não ia ver a saída do Curuzu, mas ela foi e, hoje, compreende que independente da religião, o Ilê ajudou a vida da filha dela. Tinha medo que Daiana entrasse no candomblé. Daiana não é de candomblé, mas o Ilê ajudou ela a crescer, se colocar no mundo”, afirma Val.

Por isso, a disseminação da produção é clara desde a origem do projeto. A ideia é colocar em plataformas que facilitem o acesso.  Exibição em escolas públicas e realização de rodas de conversa também estão nos planos. A apresentação na Senzala do Barro Preto ainda não tem data definida.

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Ao longo de 34 minutos, cinco rainhas foram entrevistadas, incluindo Mirinha– primeira Rainha do Ilê – e a atual rainha Larissa Oliveira. Daiana Ribeiro(2013), Edilene Alves dos Santos (2009) e Gerusa Menezes (1998) completam o rol de majestades que contaram o processo de mudança em suas vidas. “Quis também conversar com Vânia Oliveira que participou dois anos e foi princesa. Quis fazer esse paralelo, pois ela mudou da primeira participação para a segunda”, diz a idealizadora do projeto.

Antônio Carlos Vovô dos Santos, presidente do Ilê Aiyê, os diretores Vivaldo Benvindo, Arany Santana e Dete Lima, e o idealizador do evento Sérgio Roberto completam a lista dos participantes da produção. Ele era diretor, na época, e criou o formato que é muito próximo do realizado atualmente e, segundo Val, a maioria das pessoas não sabem quem é o responsável pela iniciativa.

Dez profissionais integram a ficha técnica de ‘Outra Face’. ” Tive uma sorte muito grande de ter uma equipe bem bacana que entendeu que não era só um trabalho de conclusão de curso, era algo que fala sobre mim e sobre o meu povo. Fiquei muito feliz com o resultado”, comemora.

A atuação na produção do evento auxilou Val na definição da linha do documentário. Desde a pré-seleção, ao lado da coordenadora Jaci Trindade, ela acompanha todas as candidatas, deixa as estreantes por dentro de todo o processo do concurso, marca as entrevistas, reuniões e a ida para o hotel de onde saem direto para o Curuzu no dia da escolha.

Só nessa fase que ocorre a separação. Ao chegar na sede a entidade, Val assume a produção de palco administrando a entrada e saída das atrações e  auxiliando os apresentadores. “A gente lida muito com a tensão delas. Temos que estar sempre calmas, tranquilas. Mas os momentos de tensão são, sobretudo, depois da apresentação individual. Temos que estar preparadas. Elas saem chorando, passando mal. É muita energia em cima daquele palco”, relata.

Para quem sonha fazer parte dessa história, estão abertas, até o dia 9 de janeiro de 2017, as inscrições para a 38ª Noite da Beleza Negra e a pré-seleção ocorre no dia 10. A escolha da Deusa do Ébano  que irá reinar no carnaval que traz o tema “Os povos Ewé/Fon. A influência do Jeje para os afrodescendentes” ocorrerá no dia 4 de fevereiro.

A candidata deve ser negra, ter entre 18 e 30 ano, saber a dança afro e conhecer o trabalho da entidade e da cultura negra.  O credenciamento pode ser feito pelo site do bloco (www.ileaiyeoficial.com) ou na sede da Senzala do Barro Preto, na Ladeira do Curuzu, de segunda a sexta-feira, das 8h às 11h30 e das 14h às 17h30. É necessária a entrega de uma foto que não pode ser nem em traje de praia nem com roupa íntima.  Mais informações: 71 2103-3400 ou noitedabelezanegra@gmail.com.

Veja a apresentação das candidatas do último concurso:

Ficha Técnica de Outra Face

Orientador – Guilherme Maia
Direção/Produção/Roteiro – Val Benvindo
Assistente de Direção/Produção/Roteiro – Iasmin Sobral
Consultoria – Maira Cristina
Diretor de Fotografia – Emerson
Assistente de Câmera – Og Marcelo
Som Direto – Nuno Penna
Roadie – Fábio Barreto
Trilha Sonora – Jarbas Bittencourt
Edição e montagem – Júlio Popó

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05 comentários

Escritor

Soteropolitana até não poder mais, filha de Oxoguian e chocólatra. De formação, sou jornalista pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e especialista em Jornalismo Contemporâneo.

5 Comentários

Janete Reis

Muito bom o seu artigo

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Meire Oliveira

Muito obrigada, Janete. Continue prestigiando nossa Flor de Dendê.

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Meire Oliveira

Obrigada, Janete

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arthur,advogado no rio de janeiro

olha tenho que dizer que sempre acompanho as postagens deste site e sempre saio satisfeito com a qualidade dos artigos “posts” e hoje não foi diferente ,mas como sou fanático por conteúdo sempre quero mais kkkk.deus abençõe este projeto,amém e parabéns.

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Cleidiana Ramos

Obrigada!

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