Agua de Chocalho,

ABL premia o talento de João José Reis

A Bahia acordou com uma excelente notícia: o historiador João José Reis, professor titular do Departamento de História da Ufba é o vencedor do Prêmio Machado de Assis 2017, honraria concedida pela Academia Brasileira de Letras (ABL).

A premiação de João José Reis, além de ser mais um reconhecimento para o seu extraordinário talento, chega em uma hora crucial. Ontem, portais de notícias anunciaram que, diante da crise para a emissão de passaportes por falta de recursos para a Polícia Federal (PF), o, para dizer o mínimo, polêmico ocupante da cadeira de presidente, Michel Temer, estuda fazer cortes no orçamento da educação.

João José Reis: vencedor do Prêmio Machado de Assis, da ABL. Foto: Divulgação

Para o governo brasileiro proporcionar viagens é mais importante que investir em um segmento que vem sofrendo seguidos baques como o projeto oportunista para agradar  alas conservadoras chamado de “Escola sem Partido”. O principal argumento da tal iniciativa ataca frontalmente a área de ciências humanas- filosofia, sociologia, história e antropologia- cruciais para se entender questões-chaves que atormentam este país.

Na defesa de um projeto que já nasceu de uma ideia equivocada sobre educação e com fins explicitamente levianos, seus apoiadores apresentam a escola como um espaço de “aparelhamento”- inacreditável, mas dizem isso tranquilamente. O partido que lidera a iniciativa é o DEM que todo historiador conhece de perto o DNA, sempre comprometido com tristes episódios da cena brasileira: golpes, apoio a ditadura e defesa de questões nada edificantes. Aliás, ao lado do PSDB, esse partido tem atacado as ações afirmativas como as cotas e o decreto de regulamentação de terras quilombolas a ponto de mover ação para anulá-los no STF.

Ainda na linha do desmonte da educação que apenas vinha respirando um pouco melhor nos últimos 13 anos, o atual governo já deu um jeito de apertar o FIES, extinguir o Ciências sem Fronteiras e diminuir o investimento em pesquisa. Portanto, ao dar o prêmio a João Reis, de certa forma, a Academia Brasileira de Letras (ABL) considera o campo da pesquisa em História e da educação em alto nível um exemplo a ser seguido. A instituição foi feliz na escolha de um símbolo nesse sentido.

Excelência

João José Reis é graduado em História pela Universidade Católica de Salvador (UCSal), mestre e doutor pela Universidade de Minnesota, EUA e possui pós-doutorado por instituições como Universidade de Londres,  Center for Advanced Studies in the Behavioral Sciences, da Universidade de Stanford, e  National Humanities Center. O historiador também atuou como professor visitante da  Universidade de Michigan, Universidade Brandeis, Universidade de Princeton, Universidade do Texas e Universidade de Harvard.

Além disso, como escreve bem. Os livros de João José Reis trazem pesquisa apurada, mas numa linguagem acessível mesmo para quem não tem intimidade acadêmica com os temas. São títulos como A morte é uma festa, que recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria de melhor ensaio e biografia em 1992; Domingos Sodré: um sacerdote africano e o Alufá Rufino- Tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico Negro.

Clássico

Mas o meu preferido é Rebelião Escrava no Brasil. Publicado em 1986, o livro traça detalhadamente os antecedentes, a eclosão e desdobramentos da repressão à rebelião planejada e executada, em Salvador, por escravos e libertos que professavam o islamismo. Eles eram chamados de malês, numa corruptela da palavra imale e, por isso, o movimento ficou conhecido como Revolta dos Malês.

O levante aconteceu em 25 de janeiro de 1835, véspera da Festa de Nossa Senhora da Guia, que inclui o ciclo de comemorações realizadas na Igreja do Bonfim, mas era também o período do Ramadã, um dos mais importantes períodos rituais para os muçulmanos. Durante todo o dia, a capital baiana foi palco de combates entre revoltosos – que eram cerca de 600, um número expressivo para a época- e as forças de segurança.

O levante deixou dezenas de feridos, mortos do lado rebelde e também do poder local, além de centenas de presos. Os desdobramentos da revolta provocaram um movimento de retorno de africanos para cidades do Benin e da Nigéria em novas conexões via o Atlântico.

O relato de João José Reis é baseado numa rigorosa pesquisa em documentos mas tudo é contado de forma articulada e dinâmica numa estrutura que lembra a de um romance. Aliás, esta é uma de suas marcas.

Segundo a ABL, a solenidade de entrega do prêmio será no dia 20 de julho, durante a comemoração dos 120 anos de fundação da instituição, que teve como seu primeiro presidente o gênio Machado de Assis. Essa condecoração, portanto, vem no momento em que a pesquisa brasileira pode vislumbrar o seu potencial, afinal João Reis tem dado a sua contribuição para formar novas gerações de pesquisadores sobretudo na Ufba. Ainda bem.

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Escritor

Nasci em Cachoeira no recôncavo; cresci em Iaçu na Chapada Diamantina e há 24 anos vivo em Salvador. Transito, portanto, em três das áreas mais charmosas da Bahia. Sou jornalista, mestra em estudos étnicos e africanos e doutoranda em antropologia.

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