Colunistas,

 A AIDS ainda recrudescerá  na  “endemização” latente?

A saúde publica não está imune à crise das instituições características das sociedades contemporâneas ”  Naomar  Almeida -Jairnilson Paim.

Em outras oportunidades  escrevi i: a pandemia da AIDS terá um longo e temerário percurso ate a sua estabilização clinica e epidemiológica, mas com seu  impacto dissimulado – propositalmente ou por conflitos de interesses publico ou privado? – nas sociedades pelo  “diversionismo” das linguagens midiatizadas por governos centrais dos países hegemônicos. Os especialistas alardeavam a sua gravidade para a saúde pública, em  particular, nas populações prisionais  do terceiro mundo, nos grupos “viciados” em drogas injetáveis ou não, nos extratos das sociedades com as performances  sexuais que expressam índices de alta promiscuidade, e ainda com significância epidemiológica e médico-social nas regiões mais desvalidas da África, sem acesso aos anti-retrovirais e prevenção  primária sistemática pelos organismos públicos locais  ou internacionais como a UNAIDS.

À época aludíamos à provável  “endemização” –  equilíbrio de casos novos e casos prevalentes  na comunidade – da fatídica virose porquanto a relação agente infeccioso-hospedeiro tenderia a homeostase biológica; aliando-se a esta equação a maior conscientização coletiva sobre os riscos da doença; o uso sistemático de medicações que cada vez mais controlaria a replicação e a transmissão do vírus no individuo portador e nas comunidades. “A verdade sai do poço, sem indagar quem esta à borda”, refletiu o nosso acadêmico escritor Machado de Assis.

Como a tuberculose humana, a endemização da AIDS significa o estabelecimento de reservatórios do HIV, que potencialmente serão cada dia mais resistentes aos protocolos  terapêuticos e ameaçadores da saúde publica – esta sob  severa depredação do neoliberalismo econômico governamental,  desde o golpe parlamentar culminando com a destituição da presidente Dilma. Ademais destes  custos  orçamentários, o crescimento do numero de usuários crônicos em tratamento está a revelar efeitos clínicos patológicos nos pacientes aidéticos  e  nos portadores crônicos, provocando  desde  internações hospitalares dramáticas ate o desespero suicida de segmentos dos portadores. “Esses princípios da natureza, dirão vocês, são contraditórios. Mas o que é o homem senão um amontoado de contradições”, reflete David Hume.

Hoje no Brasil – em que pese as nossas vulnerabilidades quando tratamos de fazer mensurações estatísticas  – há cerca de 750 mil portadores do HIV, dos quais apenas 590 mil sabem de seu diagnostico através de resultados laboratoriais confirmados;  e cerca de  430 mil fazem uso das  medicações, regularmente, nos ambulatórios ou consultórios clínicos e de infectologistas sub-especializados nesta patologia viral complexa e evolvente.  Num país que prima pela instabilidade e irresponsabilidade política, trocando de ministro da saúde como se troca  técnico de futebol, o futuro da nossa saúde publica pertencerá a que “milagre”? A ver.

Marcos Luna é medico e escritor, pós-graduado na Harvard Medical School e UFBA

 

0
0sem comentários

Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

Deixe uma resposta

Siga @flordedende