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Aqui, no Coração do Inferno

Rosângela Vieira Rocha

Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida, primeiro romance de Micheliny Verunschk, foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2015 na categoria Autor Estreante acima de 40 anos.

Um ano depois, a autora publicou Aqui, no coração do inferno, o primeiro volume de uma trilogia. O lançamento do segundo já está previsto para junho deste ano.

A começar pelo título, Aqui, no coração do inferno é um livro instigante, intrigante, surpreendente, corajoso, ousado e misterioso. São 121 páginas plenas de duplos, triplos e múltiplos sentidos. E de registros, chaves e sinais. Depois de ter feito duas leituras da obra, cheguei à conclusão de que há várias maneiras de se entender essa narrativa, que pode ser lida como um faroeste sertanejo, um livro policial, uma alegoria ou uma legítima representante do realismo fantástico ou mágico.

A narradora é uma adolescente filha de um delegado de polícia de uma pequena cidade do interior do Nordeste. Aparentemente, é a história de um garoto serial killer que dizem ser canibal, matador de homens (nunca de mulheres, fato que arranca elogios da narradora, ao tempo que nos mostra o seu senso de humor meio macabro). Por medo de que o matem na cadeia, o delegado decide prendê-lo na cozinha de sua casa, enquanto não chega a condução que o levará a um cárcere mais seguro. Mas esse período se alonga por causa da chuva insistente que cai sobre as estradas ruins, impedindo a chegada do veículo.

Como dito anteriormente, há mistérios e segredos por toda parte. A história se passa no período imediatamente posterior à ditadura militar. A narradora, que ocupa seu tempo lendo às escondidas os arquivos do pai trancados nas gavetas da casa, sugere, em alguns momentos, que o pai pode ter sido um torturador ou, no mínimo, conivente com a prática sistematizada da tortura naquele período ainda não suficientemente esclarecido, com o qual o país até hoje não conseguiu lidar, cujas feridas não foram pensadas e por isso não cicatrizam.

A ambiguidade da figura paterna, que pode ser estendida às instituições, é reforçada pela morte da mãe da jovem, ocorrida em circunstâncias mal explicadas, durante uma viagem do casal. Logo aparece uma madrasta, com quem nem a narradora e nem a sua irmã se sentem muito à vontade. Uma madrasta que se veste, segundo o pai, “como deve se vestir a esposa de um delegado”. Ao contrário da mãe morta, a madrasta não estuda, não tem vida própria e passa os dias em função do marido.

Mas nenhum desses fatos, isoladamente, tem grande importância na narrativa, em seu conjunto. As reações da jovem formam o fio a conduzir o leitor e o leva a adentrar esse universo estranho. A impensável figura do menino preso na cozinha desperta a sua curiosidade e a atrai fortemente, o que a faz ir ao local beber água em horários noturnos, sabedora de que não vai encontrar ninguém da casa. Aparentemente, ela é desvirginada por ele (embora com uma das mãos amarradas). Mas, mesmo após a narração da cena, o leitor não tem certeza se o fato realmente ocorreu ou se se trata de uma fantasia da menina esperta e precoce.

Surpreenderam-me fortemente as várias versões da história, algumas já esboçadas neste primeiro volume da trilogia. O que a autora parece querer nos dizer, no final das contas, é que existem muitas verdades e, portanto, várias interpretações possíveis.

Além disso, pretende nos fazer refletir sobre o mal e seus conjuntos, sobre a naturalização do mal e como ele pode – e geralmente é – apresentado como bem.

Não é uma missão fácil, a que Micheliny escolheu (ou teria sido escolhida?). Essa intrincada costura, em linguagem fluida e ao mesmo tempo poética, possui um requinte e uma sofisticação raros.

Muitas perguntas esboçadas no decorrer da história ficam sem resposta e, quando a leitura termina, desperta no leitor uma urgência de recomeçá-la, de rever todos os fatos, de somá-los, condensá-los, reexaminá-los, iluminá-los.

É de se supor que os dois próximos volumes darão conta de responder a algumas das questões apenas sugeridas no primeiro. Mas, levando-se em conta a existência de muitas verdades possíveis, não tenho tanta certeza de que todos os fatos serão esclarecidos. E nem mesmo se isso é necessário ou desejável. Escritores não têm obrigação de contar tudo. Ao leitor cabe completar a história de acordo com sua imaginação, suas vivências, sua visão de mundo.

O que sim se pode afirmar é que Micheliny Verunschk, cuja produção poética teve início antes do trabalho com a prosa, já encontrou sua voz como escritora talentosa e de enorme potencial. Por isso, não podemos deixar de acompanhar com atenção e cuidado a sua trajetória literária.

Verunschk, Micheliny. Aqui, no coração do inferno. São Paulo: Patuá, 2016.

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, professora universitária e escritora. Publicou romances, novelas e contos: (Véspera de Lua, romance vencedor do Prêmio Nacional de Literatura UFMG – 1988 e Rio das Pedras, novela, ganhadora da Bolsa de Produção Literária da Secretaria de Cultura do DF – 2001), Fome de Rosas (romance) e Pupilas Ovais (contos), além de participar de várias antologias. É autora de obras infantojuvenis e colabora na revista literária eletrônica Germina.

 

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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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