Agua de Chocalho,

Artistas que decidem comprar a briga de opinar fazem a diferença

Foto: Bruno Rangel | Divulgação

No final de semana passado, Lázaro Ramos agitou as redes sociais no âmbito das  minhas conexões por conta da passagem por Salvador de O topo da montanha, espetáculo em que divide o protagonismo com Thaís Araújo. De ontem para hoje, ele voltou a sacudir as redes. O motivo: listando seus motivos rejeitou a comenda Abdias Nascimento,  que o senado brasileiro concede, anualmente, a pessoas que se destacam na proteção e promoção da cultura afro-brasileira.

Em nota enviada à comissão, que é presidida pelo senador Paulo Paim (PT-RS), uma figura incansável em lutas como a construção do Estatuto da Igualdade Racial, mesmo que não tenha saído da forma como sonhamos, Lázaro agradece, enaltece a memória de Abdias mas afirma que não se sente à vontade diante do atual momento que o país atravessa:

Abdias do Nascimento foi um homem que estava na trincheira da luta pelos direitos da população negra e menos assistida do país.

Tem uma história de luta que é referência para todos nós que queremos um país mais igualitário.

Neste momento não me sinto confortável e nem desejoso de nenhuma homenagem pois acho que o momento do país é de conscientização, de organização para compreender em que momento histórico estamos e quais passos precisamos dar para fazer com que a tão sonhada igualdade aconteça um dia de verdade.

Então, por esse motivo, recuso essa homenagem na esperança de que tenhamos consciência de que o importante não é o aplauso pelo que foi feito e sim o próximo passo a ser dado”.

As informações são da página  PT no Senado

Lázaro Ramos e Thaís Araújo em O topo da montanha. Foto: Divulgação

Lázaro Ramos e Thaís Araújo em O topo da montanha. Foto: Divulgação

É animador ver um artista de projeção tomando posição para além do que poderia ser apenas aceitar o afago da homenagem. Isso quando, principalmente na Bahia, a gente conhece tão pouco do que pensam sobre cidadania os personagens da nossa seara cultural, além das frases de efeito em temas milimetricamente escolhidos e que passam longe de polêmicas.

Falar  em temas espinhosos parece um tabu entre as celebridades da terra. Fazer gracinhas, tagarelar sobre o formato das nuvens e a última modinha de verão é obrigatório, mas dizer o que pensa sobre assuntos incômodos como racismo é quase como falar palavrão em plataformas que chegam  a públicos mais difusos. Quantos dos artistas baianos de projeção,  por exemplo, tomaram ou tomam  posição contra as reiteradas agressões e preconceitos que atingem o povo de santo que eles louvam em suas músicas?

Pois, embora jovem, Lázaro já ocupa um lugar de destaque no grupo de artistas negros que alcançaram protagonismo na TV, o principal produto da indústria cultural brasileira. Ele tem “opinião”, “posição” e “ação”, como o programa Espelho que produz e segura.  Sua atuação inaugurou um novo patamar nessa velha e dura batalha para nos tornar visíveis em um campo extremamente poderoso que é o da estética artística. E  agora tem a companhia de Thaís Araújo nesse sentido.

 

Afinação

Lázaro estourou com o Foguinho de Cobras &Lagartos, roubando a cena, mas também já vinha experimentando protagonismo nos seus dias de palco com o  Bando de Teatro Olodum. Lembro da sua interpretação de Zumbi, na peça homônima, que adorei. Estourou no eixo sudeste com a A máquina, de João Falcão. Já na Globo, além de novelas, fez minisséries como Os pastores da noite, Sexo frágil e no cinema arrebentou em  Madame Satã e Ó paí ó.  

Junto com Thaís Araújo vem encantando com  Mr. Brau onde imagino que foi dado o passo nesse novo status de ator e atriz que não apenas “representam”, mas produzem conteúdo sobre as relações étnicos-raciais na TV aberta. Emplacar uma discussão sobre as várias faces do racismo em horário nobre na  Rede Globo é algo quase inacreditável.

Só para a gente ter uma dimensão: quando a discussão sobre as ações afirmativas  nas universidades brasileiras começou a ganhar força, o diretor de jornalismo do grupo, Ali Kamel, se apressou para lançar um livro intitulado Não somos racistas. Olhando rapidamente as abordagens dos produtos globais sobre as relações étnico-raciais dá para perceber que eles estão mais preocupados em jogar o debate para debaixo do tapete.

Daí que é impressionante como Mr. Brau  apresenta o tema. Tanto que é uma das poucas coisas que ainda consigo parar para assistir na emissora. Em um dos programas, por exemplo, o destaque foi para o desconforto de Andreia, vivida pela atriz Fernanda Freitas, para se referir  a Lima (Luiz Miranda). As caras e bocas da personagem diante da expressão de deboche e censura de Lima fez da cena um exemplo de ironia finíssima sobre o racismo cordial brasileiro.  Um show.

Mr. Brau, estrelada pelo casal, aborda o racismo em suas diversas nuances. Foto: Divulgação

Mr. Brau, estrelada pelo casal, aborda o racismo em suas diversas nuances. Foto: Divulgação

Em tempos em que os que possuem visibilidade são julgados o tempo inteiro e também patrulhados sobre essa ou aquela forma de militância, Lázaro Ramos e Thaís Araújo estão mostrando que escolheram um caminho bem difícil: a guerrilha por dentro do sistema. É questão de opção e também de coragem para rebater as críticas que sempre aparecem, inclusive o “fogo amigo”.

Mas o que eles estão fazendo, a meu ver, é único até então. Óbvio que só é possível para quem construiu uma carreira como a deles e que lhes permite ousar no que acreditam. Mesmo nos EUA onde a militância de estrelas e astros negros é muito antiga, Beyoncé só  recentemente tirou da cartola o clipe e a performance bafônicos de Formation.   

Espetáculos e produtos sobre questão étnico-racial produzidos e estrelados por  Lázaro e Thaís me enchem de esperança porque apontam na direção do que vem fazendo a roteirista e produtora Shonda Rhimes nos EUA. Nos dois casos a trajetória é bem parecida: primeiro, a construção da carreira onde se coloca quando possível as dores do racismo e depois é só ir ampliando a vereda para resolver as representações e debates.

Ao seu modo, o casal está mostrando que artistas  lutam contra o racismo e seus tentáculos das formas que escolhem e podem, afinal cada uma ou cada um é um mundo com suas alegrias e suas dores. E travar o combate na barriga da hidra requer mais do que disputa de espaço.

 

 

 

 

 

 

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Escritor

Nasci em Cachoeira no recôncavo; cresci em Iaçu na Chapada Diamantina e há 24 anos vivo em Salvador. Transito, portanto, em três das áreas mais charmosas da Bahia. Sou jornalista, mestra em estudos étnicos e africanos e doutoranda em antropologia.

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