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As crianças: o sagrado tempo ancestral

Especial 

 

Rosiane Rodrigues

 

Orìkí fún Ibeji

B’eji B’eji’re

B’eji B’eji’la

B’eji B’ejiwo

Ìba omo ire

Àse

Tradução:

Reza para Ibeji

Dar a luz aos gêmeos traz fortuna boa

Dar a luz aos gêmeos traz abundância

Dar a luz aos gêmeos traz dinheiro

Elogiar as crianças das coisas boas

Axé

(Fonte: Blogpost Meu Orixá)

A maioria das pessoas não tem ideia do quanto às crianças são sagradas para os praticantes das religiões afro-brasileiras. Há muito que nossos ancestrais africanos ensinaram – com aquela sabedoria toda, que sempre lhes foi peculiar, passada da boca ao ouvido – que todas as crianças representam a certeza da continuidade da humanidade. Uma grande quantidade de pessoas também nem imagina que, mesmo no contexto atual de muitos povos africanos, os pais consideram seus filhos como suas maiores riquezas e, não é raro, que um homem tenha sua riqueza medida pela quantidade de filhos que possui.

Entender como se dá esta lógica é fundamental para nos aproximarmos do legado ancestral deixado por uma centena de povos africanos como herança ao povo brasileiro. É bom frisar que ainda hoje, no continente africano, o culto às crianças (Ibeji) é indispensável em todas as liturgias e merece o mesmo respeito dispensado a qualquer Orixá. A palavra ‘Igbeji’ em yorubá pode ser traduzida por “gêmeos”. Este orixá é o único permanentemente duplo, uma vez que forma-se a partir de duas entidades distintas que coexistem e respeita o princípio da dualidade do ser humano. Seu culto é feito com guloseimas, brinquedos e frutas.

Com toda esta estima e culto às crianças, não fica difícil entender – ainda que não tenhamos dimensão das complexas negociações e resistências que os nossos antepassados tiveram que desenvolver na diáspora forçada pela escravidão, em solo brasileiro – a necessidade dos povos africanos manterem suas tradições, ainda que por força do sincretismo, de culto aos Ibejis. E é à força deste sincretismo, que faz com que qualquer um, com pouco mais de 30 anos, possa se lembrar do que é a ‘farra’ das crianças enlouquecidas em busca de doces de Cosme e Damião – os santos católicos, representados por duas crianças – no dia 27 de setembro.

Foto: Divulgação

Por certo que o culto a Ibeji, na yorubalândia, e de Vunji (a divindade infantil dos povos Bantu), nas terras de Angola, não são as mesmas que conhecemos por aqui. No entanto, essas festividades mantêm o princípio de valorização daquilo que é mais importante para os religiosos das tradições afro-brasileiras: a continuidade da família, a alegria e inocência das nossas crianças.

Penso que outro ponto-chave para refletirmos sobre o quão sagrado são as crianças para os terreiros de Candomblé, Brasil afora, está no sentido da ancestralidade. É através da ancestralidade que tudo acontece nas religiões afro-brasileiras. E o que exatamente seria ancestralidade, como conceito central dos povos tradicionais de matriz africana? Para além das explicações metafísicas ou espirituais, penso que podemos pensá-la como uma linha de tempo que não se reproduz em passado, presente e futuro, mas em coetaneidade. Isso significa que as três dimensões do tempo que conhecemos existem simultaneamente e se comunicam de acordo com os nossos atos e pensamentos.

Parece complicado? Vou tentar facilitar, mas já aviso que a perspectiva que vou apresentar não é unânime e nem representa todo o conjunto dos panteões afro-diaspóricos que constituem as religiões afro. É apenas a minha visão particular sobre o que chamamos ancestralidade. Pois bem, a entendo como se o futuro já estivesse acontecendo, agora. Observe que em dez minutos, quando você terminar de ler este texto, ele já estará no seu passado. E cabe a você utiliza-lo ou não para sua reflexão, para que seu entendimento seja ampliado…. você pode discordar ou concordar com o que está escrito. No entanto, irremediavelmente, ele estará no seu passado.

Simultaneamente, são as escolhas e preparativos que você fará ou não com o que leu, que determinará que tipo de importância ele terá no seu futuro. Essas escolhas acontecem num átomo de segundo, entre o que foi e o que há de ser. É neste tempo atômico que chamamos presente, que acumulamos conhecimento (seja lá do que for) que decidimos o que faremos com o que recebemos. O princípio da ancestralidade em nós reside exatamente neste segundo, em que recebemos conhecimento do que já é passado (aqui está uma analogia óbvia aos antepassados, aos idosos, aos griôs) e escolhemos o que faremos no futuro (com as nossas crianças). Estamos, então, no meio do caminho.

Entender a ancestralidade é sermos responsáveis pelo que recebemos em nosso passado (dos mais velhos) e como iremos transmitir este legado para o futuro (aos mais jovens). É por este entendimento muito específico dos povos africanos sobre os mecanismos de simultaneidade da ancestralidade, que dialoga com o tempo a partir de outra lógica, que faz com que as crianças e os idosos sejam reverenciados e respeitados como sagrados em todas as suas manifestações.

Rosiane Rodrigues é iyalorixá,  jornalista, antropóloga e pesquisadora do Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (INEAC/UFF) e do Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas (NUFEP/UFF).

 

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Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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