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Branistão

Gerson Brandão

Faz mais de quarenta anos depois de cunhar o termo “Belíndia”, quando simbolicamente definiu as desigualdades econômicas e sociais do nosso país. Se voltasse a fazer uma análise do Brasil (tendo como foco o estado do Rio), o professor Edmar Bacha talvez concluísse que vivemos no Branistão, tamanha a semelhança com a situação no Afeganistão onde o fundamentalismo religioso encontrou no crime organizado um aliado importante na criação de um estado paralelo que tem como objetivo o poder, a perseguição às minorias e o desconhecimento do Estado de Direito.

Já há mais de 10 anos, relatórios da Organização das Nações Unidas apontam o tráfico de drogas como uma via que financia o terrorismo indicando a lavagem de recursos ilícitos provevientes do crime como garantia de poder do fundamentalismo religioso, sendo o envolvimento dos talibães no plantio e comércio do ópio o caso mais flagrante. Assim como é flagrante a estratégia de grupos radicais que utilizam a religião como plataforma política utilizando livros sagrados para arregimentar fiéis que servem de mão-de-obra a um projeto de poder que almeja a imposição do pensamento único e o ataque àqueles que pensam diferente.

O fundamentalismo religioso no Afeganistão esteve direta ou indiretamente ligado ao fechamento de escolas e postos de saúde, impedindo no ano de 2015 que mais de 130 mil crianças tivessem acesso à educação. Nas montanhas de Kandahar, assim como no Morro do Dendê, zona norte do Rio de Janeiro, onde as pessoas foram proibidas por traficantes de vestir roupas brancas; existem códigos de conduta que obrigam as pessoas a se vestirem de uma certa forma, e em casos extremos mulheres, são proibidas de mostrar mesmo os olhos. Na televisão pública brasileira – nunca é demais sublinhar, uma concessão do Estado [laico!]– Nossa Senhora já foi tratada a pontapés. Enquanto em Bamian imagens de budas, com mais de 14 séculos de história foram dinamitados. No Brasil, um outro exemplo de atentado contra a cultura e a história de um povo é a proibição das festas juninas em algumas escolas públicas, a demonização das religiões de origem Africana ou ainda o ataque a refugiados tudo aparentemente feito de maneira orquestrada por grupos fundamentalistas que não aceitam a diversidade, desrespeitam as leis e não reconhecem a laicidade do Estado.

No Afeganistão, bases militares assim como postos de polícia são atacados regularmente, e, no ano de 2016, mais de 6000 militares perderam a vida. No Rio de Janeiro, apenas em 2017, 100 policiais foram mortos, muitos deles pais de familia, pessoas que pagaram com a vida o compromisso assumido em representar o Estado na sua obrigação de proteger a todos. Assim como o crime organizado, o fundamentalismo religioso desagrega e impede a convivência pacífica que deve existir seja em um bairro, uma cidade ou um país.

Os afegãos são pessoas cordiais, e na sua maioria conhecidos pela honestidade. Porém infelizmente o governo tem encontrado dificuldades em protegê-los pois o aparelho estatal pouco a pouco foi corroído pela ascensão do fundamentalismo religioso que por sua vez deve uma grande parte do seu poder atual ao crime organizado. Sendo assim, talvez tenha chegado a hora em que o Estado e todos os cidadãos devem se posicionar com clareza frente a estas duas ameaças: o crime organizado e o fundamentalismo religioso. Antes de chegarmos a declaração de um califado, com a benção do tráfico.

Gerson Brandão é encarregado de Assuntos Humanitários da ONU e mestre em Direitos Humanos e Cooperação Internacional pela Universidade de Estrasburgo

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Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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