Mandacaru,

Das lendas que resistem: O Nego D’água

Foto: Tom Cabral

Quando pequena, crescida em cidadezinha banhada pelo divino Paraguaçu, costumava ouvir histórias sobre o Nego D’água, histórias perdidas hoje. Todos nós temíamos a incrível criatura que enganava-nos dizer ser, quando aparecia, um cágado d’água. “Ali, ali!” Apontava meu irmão mais novo tentando ter a certeza de que era ele. Adorávamos os banhos no rio, mas tínhamos medo de sermos puxados para o fundo, como contavam as histórias de pescador. Talvez, se fosse mais velha, saberia o que significa “histórias de pescador”.
Em novembro do ano passado, as obras de Lêdo Ivo, que estão no Rio São Francisco, representando o Nego D’água e a Mãe D’água (comparada à Iemanjá) foram alvo de dois pastores de Petrolina, que alegaram que o rio não seria um lugar apropriado para se colocar nenhum objeto, já que oferecem risco a navegação, além de alegar a laicidade.
As estatuas que foram colocadas em 2003 (Nego D’água) e 2012 (Mãe D’água) e que custam respectivamente R$130 mil e R$90 mil, ficam localizadas entre Juazeiro e Petrolina. O caso foi para o Ministério Público Federal que ouviu a descartou a questão da laicidade depois de ouvir a população que defendeu as obras, como parte do imaginário popular e folclórico. Quanto aos problemas de navegação, não foram confirmadas pela Capitania do Portos. O processo ainda investiga se as obras causam danos ambientais. No mesmo período um vereador de Petrolina atribuiu a culpa da seca às estatuas.
O fato é que as estátuas que embelezam e mantém viva as lendas dos rios que cortam os sertões foram alvo de intolerância religiosa. Antes de qualquer coisa, as lendas do Nego D’água ou da Mãe D’água, bem como da Caipora, do Lobisomen, a Mula-sem-cabeça ou do Saci Pererê, por exemplo, fazem parte não só do nosso imaginário popular, mas da nossa formação identitária enquanto nordeste ou enquanto Brasil.

A lenda

Reza a lenda que o Nego D’água habita os mais diversos rios da região nordeste, aparecendo para os pescadores e frequentadores da água doce, manifestando-se com suas famosas gargalhadas. Ninguém jamais provou, mas as histórias de pescadores contam que a criatura é careca e tem mãos de patos e que, caso não receba agrados como cachaça, fumo e peixe dos pescadores, vira a embarcação.
Além disso, alguns pescadores ainda atribuem a falta de peixe em alguns dias ao Nego D’água, que por não receber agrados dispersa os peixes de perto do barco. Anzóis perdidos e redes furadas também podem ser arte do moço danado que, embora viva dentro do rio, já foi visto fora dele (também, segundo as histórias de pescador). Algumas versões ainda contam que o Nego D’água virava as embarcações para raptar mulheres de pernas grossas.
A lenda já virou filme, dirigido por Roque Araújo e Flávio Henrique Fonseca. Com Maria Flor e Rafael Zulu, Nego D’água, conta a história de Marta, uma menina ribeirinha que se apaixona pela criatura. Veja o trailer.

Ninguém sabe dizer ao certo como a lenda surgiu de tão antiga que ela é. Alguns pescadores ainda levam cachaça e fumo em suas embarcações para oferecer ao Nego D’água. No fim das contas, há quem acredite ou não, mas na dúvida, para entrar nos rios nordestinos não custa pedir licença. Confira o vídeo da RTV Caatinga Univasf.

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Escritor

Susana Rebouças, 23 anos. Graduada em Comunicação com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Jornalista da Flor de Dendê.

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