Colunistas,

Detonando os gatekeepers de Hollywood

Priscila Dórea

As mulheres estão detonando com os porteiros de Hollywood. Os supostos gatekeepers que tornaram normal a ideia de que, para facilitar o caminho para a fama, uma taxa deveria ser paga na porta de entrada se você tem um par de peitos. Um favor, um agrado, um incentivo. O fino véu que escondia o que de pior existe em Hollywood está sendo rasgado com fúria e nenhum queridinho está sendo perdoado.

Fico me perguntando se a impunidade de Johnny Depp se tornou o estopim. Enquanto sua agressão foi jogada para debaixo do tapete, a maioria dos homens acusados que vieram depois não foi agraciada com tanta sorte. Décadas de assédio, abuso e chantagem estão caindo por terra e nos faz sentir aquela ginge ao assistir TV, imaginando o que esses atores, produtores e diretores andaram fazendo.

Enquanto o mínimo deslize por parte das mulheres é o mesmo que decretar carta de demissão, o erro por parte de homens é facilmente esquecido e, se caso todo o silêncio não fizer o público esquecer, eles ganham papel em um blockbuster.

Mulheres vão ao Golden Globes Awards 2018 vestindo preto em protesto pelo assédio em Hollywood. Foto: Perri Tomkiewicz/ Divulgação

A verdade é que, enquanto esse véu que esconde os gatekeepers é rasgado na calçada da fama, a película primaveril que nos seduzia foi tirada também. Sorrisos sensuais, olhos brilhantes e barbas por fazer não nos seduzem mais tão facilmente. Agora que sabemos o que acontece além do making off, é fácil se culpar por gostar de um filme. Um clique no Google e já descobrimos mais do que queríamos saber sobre o que a pessoa por trás do personagem faz nas horas vagas.

O mais triste é que não é uma verdade que não conhecíamos. Ríamos contentes sentados nos sofás de casa e salas de cinema, fechando os olhos forçosamente para as suspeitas e fofocas. Enquanto, sabendo o quanto o mundo é cruel, não duvidávamos que houvesse o mínimo de verdade e realidade em tudo que fosse dito. Porém, julgar uma mulher é o praxe, fechar os olhos para os homens é viver confortável com a resignação pelo resto da vida. Se tudo acontece tão distante de mim, não a motivo para entregar nem metade da atenção.

O ponto é:  nada dessa situação esta distante. Assim como o que assistimos nas telas é motivo de inspiração, também espelha a realidade. O que acontece por trás das câmeras é a nossa realidade. No trabalho, no mercado, na rua, dentro de casa. Os gatekeepers só estão mais bem caracterizados para plot de nossas vidas.

Tudo isso é como o arranhar infinito de um garfo no prato. Apesar de tudo, é triste se dar conta que o que estamos descobrindo agora não deve ser nem um terço do que esse véu esconde.

Na linha desta reflexão veja o clip de Gatekeeper , de Jessie Reyez. Acompanhe com a tradução da letra.

 

Oh, I’m the gatekeeper

(Oh, eu sou o porteiro)

Spread your legs

(Espalhe suas pernas)

Open up

(Abra)

You could be famous

(Você poderia ser famosa)

If you come up anywhere else, I’ll erase you

(Se você surgir em outro lugar, eu apago você)

Priscila Dórea é estudante que se considera filha desgarrada de Letras, chegou ao B.I. (Bacharelado Interdisciplinar da Ufba) pensando em Jornalismo e está quase achando que descobriu seu lugar. 

 

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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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