Colunistas,

Xangô e Ifá na trajetória de Bamboxê Obitikô e seus descendentes

Lisa Earl Castillo

Fotos: Ludmila Cunha e Divulgação

Bamboxê Obitikô (Rodolfo Manoel Martins de Andrade, c. 1820-1904) deixou descendentes nos dois lados do Atlântico, em Lagos e no Brasil. De origem oyó, a família tem Xangô como seu patrono. Não se sabe quando Bamboxê começou a prática de Ifá, mas as tradições orais nos dois lados do mar afirmam que era devoto de Orunmilá. Na casa familiar em Lagos, ainda são guardados os assentamentos de Orunmilá (com ikin ifá, elemento fundamental desse orixá) e de Xangô, que remontam aos tempos do fundador.. Na Bahia, a finada Irenea Sowzer, bisneta de Bamboxê, contava que ele fazia consultas com ikins e uma “tábua de Ifá” – ou seja, opan ifá, bandeja própria à adivinhação por Ifá.

O pai de Irenea, Felisberto Américo Sowzer, Oguntossi (1877-1940), neto de Bamboxê, também fazia consultas pelo oráculo de Ifá. Além de jogar com ikin ifá como seu avô, ele utilizava opele ifá, o “rosário de Ifá”. Também era habilidoso no erindilogun, ou jogo de dezesseis búzios, que no Brasil, ao longo do século XX, se tornou a técnica principal de adivinhação. Os filhos carnais de Felisberto, Crispim e Taurino, aprenderam com o pai todas essas formas de consulta de oráculos. No final do século XX, depois das mortes de Crispim e Taurino, os ikins passaram para seu sobrinho Waldir Sowzer, que ainda zela por eles. Em relação às filhas, uma, Caetana (1910-1993), era apetebi – posto dado a uma mulher de Oxum que auxilia o babalaô em determinadas tarefas. Caetana e suas irmãs Tertuliana (1908-1993), Regina (1911-2009) e Irenea (1920-2014) , todas iniciadas no culto aos orixás, aprenderam com o pai o jogo de búzios. Caetana, Regina e Irenea e se tornaram ialorixás conhecidas.

Salientamos que além de seu envolvimento em Ifá, ambos Bamboxê Obitikô e seu neto Felisberto eram também babalorixás. Bamboxê era consagrado a Xangô, com o orukó Obá Obitikô. Sua atuação dupla nos cultos de Ifá e de Xangô é lembrada nas tradições orais de vários importantes terreiros, por sinal todos regidos por Xangô: a Casa Branca do Engenho Velho ou Ilê Axé Iyá Nassô Oká (em Salvador) e o Ilê Axé Opô Afonjá (no Rio de Janeiro e em Salvador). Sabe-se que Bamboxê fez parte da iniciação de Eugenia Anna dos Santos, Obabiyi (1869-1938), fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá (Salvador), e de Manoel do Bonfim, fundador do Ilê Axé Obá Tadê Patiti (Salvador), bem como de outras pessoas. Bamboxê viajava muito para o Rio, onde fazia iniciações e tinha uma sala para atender os clientes. Felisberto era de Ogum, como indica seu orukó, Oguntossi, mas tinha Xangô por herança de família. Desde o início do século XX até sua morte em 1940, ele dividia seu tempo entre Salvador e o Rio, e tinha muitos filhos de santo em ambos lugares. Vemos assim que no âmbito do culto aos orixás, a família de santo crescia bastante pela  inclusão de pessoas sem parentesco biológico. Contudo, no que tange ao culto de Ifá o caminho foi um pouco diferente, pois o conhecimento próprio ao oráculo foi passado apenas para membros da família carnal.

Cabe lembrar, ainda, que o jogo de dezesseis búzios passou por um processo de reconfiguração no Brasil, e há indícios de que esse processo contou com uma atuação importante da família Bamboxê, pois esse estilo é chamado por alguns de “sistema Bamboxê”. Essa atuação é ilustrada pela trajetória de um caderno de odus que começou a circular clandestinamente entre o alto clero do candomblé no início do século XX.[1] Em 1998, Agenor Miranda Rocha o publicou, reivindicando autoria original. Contudo, de acordo com Iyá Irenea, na verdade quem transpôs o documento para a escrita foi seu pai, Felisberto Oguntossi. Foi cedido por ele a alguns filhos de santo, que fizeram cópias à mão. Assim o caderno passou a circular, no Rio e na Bahia, entre pessoas vinculadas ao axé Bamboxê, tornando-se um guia prático para a relação entre os odus e as várias configurações de búzios que surgem no jogo. Para o antropólogo e babalorixá Julio Braga, o argumento de Iyá Irenea é apoiado pelo próprio conteúdo do caderno – uma sofisticada sintetização de elementos provenientes de Ifá, do erindilogun e ainda do imaginário brasileiro, a qual só pode ter sido feito por “um babalaô experiente, conhecedor da estrutura e mecânica operacional do jogo de Ifá”.

Para uma discussão completa do envolvimento de Bamboxê e Felisberto no culto de Ifá, ver Julio Braga, Sistema Divinatório Bamboxê, http://www.pilaodeprata.com.br/spab.html
Para uma análise das diversas tradições orais e os documentos históricos sobre a trajetória da família no século XIX, ver Lisa Earl Castillo, Bamboxê Obitikô e a expansão do culto aos orixás (século XIX): uma rede religiosa afroatlântica, http://www.historia.uff.br/tempo/site/wp-content/uploads/2016/04/07-Lisa-Castillo-port.pdf
 

Note of clarification

Xangô and Ifá in the lives of Bamboxê Obitikô and his descendents

Bamboxê Obitikô (Rodolfo Manoel Martins de Andrade, ca. 1820-1904) left descendants on both sides of the Atlantic, in Lagos and in Brazil. Of Oyó origin, the family has Xangô as its patron. It is unclear when Bamboxê began to practice Ifá, but oral traditions on both sides of the ocean are in agrément that he worshipped Orunmilá. At the family home in Lagos there are still shrines to Orunmilá (with ikin ifá, a fundamental element) and to Xangô, which were established during Bamboxê Obitikô’s lifetime. In Bahia, the late Irenea Sowzer, great-granddaughter of Bamboxê, recalled that during divination sessions he used ikins and an “Ifá board” – as the opan ifá, a specialized tray used in Ifá divination, was popularly known.

Irenea’s father, Felisberto Américo Sowzer, (1877-1940), Bamboxê’s grandson, also was skilled in consulting the Ifá oracle. In addition to using ikin ifá like his grandfather, he also used opele ifá, known in Brazil as the “rosary of Ifá”. He was also extremely knowledgeable in erindilogun divination, using sixteen cowries, a style that over the course of the 20th century became the predominant form of divination used in Brazil. Felisberto taught all of these divination techniques to his sons, Crispim and Taurino. After their deaths near the end of the 1900s, the ikins were entrusted to their nephew, Waldir Sowzer, who cares for them to this day. With regard to Feliberto’s daughters, one, Caetana (1910-1993), was apetebi – a female post that involves assisting the babalaô in certain tasks. Caetana and her sisters Tertuliana (1908-1993), Regina (1911-2009) and Irenea (1920-2014), all initiated into orixá worship, were all skilled in divination using sixteen cowries. Caetana, Regina and Irenea became well-known ialorixás.

It is important to emphasize that in addition to being priests of Ifá, both Bamboxê Obitikô and his grandson Felisberto were also babalorixás. Bamboxê was initiated in Xangô worship and his ritual name (orukó) was Obá Obitikô. His parallel involvement in Ifá and Xangô worship is recalled by the oral traditions of several important terreiros (temples), all of which have Xangô as their patron: the Casa Branca do Engenho Velho, or Ilê Axé Iyá Nassô Oká (in Salvador) and Ilê Axé Opô Afonjá (in Rio de Janeiro and in Salvador). It is known that Bamboxê participated in the initiation of Eugenia Anna dos Santos, Obabiyi (1869-1938), founding priestess of Ilê Axé Opô Afonjá (Salvador); Manoel do Bonfim, founder of Ilê Axé Obá Tadê Patiti (Salvador), and others. Bamboxê traveled frequentely to Rio, where he performed divination and initiations for Xangô. Felisberto was initiated in the cult of Ogum, as his ritual name, Oguntossi, indicates, but he also had Xangô as a family orixá. From the turn of the 20th century until his death in 1940, he divided his time between Salvador and Rio, and had many omo orixá (spiritual children) in both places. Thus, we see that in orixá worship, the spiritual family expanded due to the inclusion of new members who were not blood relatives. In terms of Ifá practice, however, there was a difference: the knowledge about the oracle was passed on only to members of the biological family.

It should also be remembered that the sixteen-cowries divination technique underwent a number of changes in Brazil, and there is evidence that the Bamboxê family was influential in this process. In fact, in Brazil this form of divination is sometimes referred to as the “Bamboxê system.” The family’s role is illustrated by the trajectory of a manuscript containing odus that began to circulate among the upper echelons of candomblé initiates in the early 20th century. Decades later, in 1998, it was published by Agenor Miranda Rocha, who claimed original authorship.[2]  However, according to Iyá Irenea, the document was actually written by her father, Felisberto Oguntossi, who allowed some of his followers to make copies for themselves. Thus the notebook was passed from one person to another in communities linked to the Bamboxê family, in both Rio and Bahia, serving as a practical guide for understanding the relationship between the odus and the various configurations of cowry shells that arise during divination. According to anthropologist and babalorixá Julio Braga, de Iyá Irenea’s argument is supported by the very contente of the notebook– a sophisticated synthesis of elements of Ifá, erindilogun and the Brazilian social environment, in a style that bears the mark of “an experienced babalaô who understood the structure and operational mechanics of Ifá divination.”

 

For a detailed discussion of the family´s involvement in Ifá practice, see Julio Braga, Sistema Divinatório Bamboxê, http://www.pilaodeprata.com.br/spab.html
For an analysis of the various oral traditions and historical documents about the family´s trajectory in the 19th century, see Lisa Earl Castillo, Bamboxê Obitikô e a expansão do culto aos orixás (século XIX): uma rede religiosa afroatlântica, http://www.historia.uff.br/tempo/site/wp-content/uploads/2016/04/07-Lisa-Castillo-port.pdf
[1] ROCHA, Agenor Miranda. Caminhos de Odu. Rio de Janeiro: Pallas, 1998. O caderno foi publicado duas outras vezes, por estudiosos que não reivindicaram autoria. Ver FEUSER, Willfried; CUNHA, José Marianno de (org). Dílógún: Brazilian Tales of Yorùbá Divination Discovered in Bahia. Lagos: Centre for Black and African Arts and Civilization, 1982; BRAGA, Julio. Contos afro-brasileiros. Salvador: Funceb, 1989.
[2] ROCHA, Agenor Miranda. Caminhos de Odu. Rio de Janeiro: Pallas, 1998.The notebook was published  two other times, by scholars who did not claim authorship. See FEUSER, Willfried; CUNHA, José Marianno de (org). Dílógún: Brazilian Tales of Yorùbá Divination Discovered in Bahia. Lagos: Centre for Black and African Arts and Civilization, 1982; BRAGA, Julio. Contos afro-brasileiros. Salvador: Funceb, 1989.

Lisa Earl Castillo, Doutora em Letras, pesquisadora, é autora de Entre a oralidade e a escrita: a etnografia nos candomblés da Bahia (Edufba, 2008), além de assinar diversos artigos sobre uma importante rede de africanos e seus descendentes nas redes de relações transatlânticas   

 

Confira a quinta edição da nossa revista sobre a família Bamboxê Obitikô.  

3+
01 comentário

Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

1 comentário

Paulo Roberto Dumas (Ojumila).

E muito gratificante ver ad origens, as raizes serem respeitosamente estudadas e apresentadas ao publico.
Ase ooo Ire ooo Igba oooo
Adupe Modupe Bamgbose.
Kabyesile Oba.

1+

Responder

Deixe uma resposta

Siga @flordedende

error: Este conteúdo é protegido, por favor não copie.