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Feijão: o volante que desarmou o ataque contra sua liberdade religiosa

Cleidiana Ramos
Fotos: Look Assessoria | Divulgação

Como a maioria dos jovens na sua faixa etária – ele tem 23 anos-, Antonio Felipe Gonzaga de Aquino mantém uma conta no Instagram, onde posta detalhes do seu dia-a-dia. Mas com esse nome vai ser impossível encontrar o perfil. Só fica fácil por meio do seu apelido de celebridade:  Feijão, volante do Esporte Clube Bahia, time que movimenta uma legião de torcedores.

Logo na apresentação do perfil está a informação que o envolveu no episódio em que se tornou vítima de preconceito religioso: “Filho de Ogum”. Isso mesmo. Feijão é, talvez, um caso único entre jogadores de futebol de um grande clube do futebol brasileiro- o Bahia tem dois títulos nacionais- ao assumir que é de candomblé. Foi essa afirmação que motivou o ataque que sofreu.

Na semana passada, um seguidor do perfil do jogador reagiu mal a um post em que Feijão postou “Ogum” depois de uma mensagem em que falava da realização por ser jogador de futebol. Entre xingamentos, o indignado com a confissão religiosa do atleta sentenciou que sua carreira não seguiria em frente  e disse que o queria fora do clube.

Post de Feijão no Instagram que gerou o ataque de preconceito religioso. Foto: Reprodução

Feijão respondeu à altura: assumiu ser “macumbeiro mesmo” e escreveu que não via autoridade no agressor para ser expulso do Bahia. “Estou lá no meu perfil e vem o cara falar um monte de bobagem”, relatou em uma rápida conversa que tivemos por telefone devido à sua movimentada agenda de treinos, viagens e concentração. O episódio foi fartamente noticiado, o que é mais um indício de como é raro um jogador de futebol profissional assumir que é de candomblé.

“Por que eu iria esconder isso? É a minha religião e não vejo porque não posso assumir”, disse Feijão, com tranquilidade. Diferentemente do jogador do Bahia, para muitos jogadores, é melhor ficar calado do que enfrentar preconceitos.

Currículo

A maioria dos atletas de futebol são declaradamente evangélicos. Assim, de forma genérica e muitos  sem vinculação a uma instituição específica. Circula a informação que isso faz bem para o currículo, pois se passa para a torcida, mesmo que de forma cifrada, a informação de que o jogador não vai a festas, não bebe e não se envolve com farras. Como se a verbalização religiosa desse garantias neste sentido. Mas é o que virou convenção. Feijão acha bobagem esconder a crença.

“Cada um tem que assumir a fé que tem. Comigo não poderia ser diferente porque sou de candomblé desde a barriga de minha mãe”, conta. Soteropolitano, 23 anos, 1,79 de altura e 75 kg, Feijão é descrito nos bastidores da cobertura esportiva como um atleta responsável, muito ligado à família e à rede de convivência que tinha antes da fama.

Feijão rapidamente alcançou popularidade entre os torcedores do Bahia. Foto: Look Assessoria | Divulgação

É neto de um sacerdote de candomblé, que tinha terreiro na zona rural de Feira de Santana, município localizado a 110 km de Salvador. O avô se chamava Pedro Matos Gonzaga e a mãe do atleta, Altamira dos Reis Gonzaga, dona Dí, “herdou cargo”, como se diz neste ambiente religioso.

Atualmente, Feijão e dona Dí frequentam um terreiro localizado em Cajazeiras 5, na capital baiana. Ele não dá muito detalhes, como tem aprendido com dona Dí. O segredo sobre os enredos pessoais é marca de algumas das casas de santo de Salvador.

“Minha mãe não fala muita coisa sobre meus enredos. Tudo que sei é que sou de Ogum”, conta, rindo. Ele também ainda não sabe se é adoxu- como se chama no candomblé as pessoas que tem a faculdade de entrar em transe, incorporando as divindades- ou se será escolhido como ogã. Neste posto não há a incorporação. A casa que frequentam é de nação ketu, onde os ritos são feitos com o uso da língua iorubá e as divindades cultuadas se chamam orixás.

Amor  

Feijão  demonstra amor incondicional pelo seu orixá protetor e dono da sua cabeça. “Ogum é tudo”. Em seguida completa com uma gíria bem soteropolitana: “Ele é barril”. No baianês, esta palavra é ideal para as  situações e pessoas ( e agora também  um orixá)  que não se amedrontam frente a um desafio por maior que ele seja.

Ogum é uma divindade identificada com a força, principalmente a de guerrear, além de dominar todo o conhecimento sobre tecnologia. Foi ele quem, no panteão iorubano, uma das muitas culturas africanas que enriqueceram o Brasil, dominou a técnica de forjar metais o que contribuiu para o desenvolvimento dos povos.

Ogum é apresentado como um guerreiro destemido e o patrono da tecnologia

Além disso, ele presenteou seus irmãos orixás com as insígnias que simbolizam seu domínio sobre os elementos ou situações: Oxóssi, o caçador empunha o ofá, uma espécie de arco e flecha; Oxalá leva um cajado e Iemanjá o espelho, dentre outros.

Por conta da sua identificação com a guerra, os filhos de Ogum são considerados voluntariosos e de cabeça quente. Neste sentido, Feijão se identifica completamente: “Eu sou tranquilo, mas quando me chateiam realmente fico explosivo”, diz, em meio a uma gargalhada. Além do Bahia já defendeu o Flamengo e o Atlético Goianense.

Feijão é também muito seguro em relação a outras questões delicadas, como o racismo. Numa entrevista para o especial Fim de jogo para o racismo, publicado em 20 de novembro de 2013 pelo jornal A Tarde,  contou ao repórter André Uzêda que o apelido veio por conta da sua cor da pele e que dona Dí, quando soube, ficou danada, como se diz na Bahia. Mas com o tempo, ele acabou assumindo o nome.

É curioso porque quem começou a chamá-lo assim imaginava fazer piada com a sua cor- uma forma clássica de disfarce do racismo à brasileira. Mas, feijão é exatamente uma das comidas preferidas de Ogum. Portanto, como disse o atleta, quando a gente se despediu: “Ogunhê”!

Em tempo:

Uma das poucas vezes em que as religiões afro-brasileiras apareceram de forma ostensiva em ambiente de visibilidade no futebol brasileiro foi em um vídeo da Nike para promover a camisa oficial da Seleção Brasileira na cor azul. Ainda assim elas foram tratadas de forma enviesada e no campo da “magia” por meio das entrevistas com os jogadores Robinho, hoje no Atlético Mineiro, Maicon, lateral do Avaí, e Luís Fabiano, atleta do Vasco da Gama. Não à toa o vídeo se chama Mandigas.

Assista abaixo e faça sua análise.

 

 

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Escritor

Nasci em Cachoeira no recôncavo; cresci em Iaçu na Chapada Diamantina e há 24 anos vivo em Salvador. Transito, portanto, em três das áreas mais charmosas da Bahia. Sou jornalista, mestra em estudos étnicos e africanos e doutoranda em antropologia.

1 comentário

Carlos Barros

Perfil que alimenta esperanças de outros olhares!
Gostei!
Ogunhê!

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