Colunistas,

A Garota de quinze anos

 

Rosângela Vieira Rocha

 

Realizei há pouco um de meus grandes desejos: estive na Festa Literária de Paraty – FLIP, evento a que tentei ir várias vezes, mas por algum motivo de natureza pessoal, não consegui. Fui, vi, ouvi, conversei e gostei. E dei sorte, pois participei de um evento histórico, uma FLIP única, que representou um marco na história da maior e mais importante festa literária do país.

A 15ª FLIP já começou diferente, com a curadoria de Josélia Aguiar, jornalista cultural e historiadora baiana,  graduada em Jornalismo pela FACOM/UFBA, prestes a obter o título de doutora em São Paulo, onde mora há anos. A competência e a abertura de Josélia, criada numa cidade multicultural como Salvador, foram dignas de nota na estrutura, configuração e desenho do evento, que teve como homenageado o escritor Lima Barreto (1881-1922), negro, pobre e considerado por muitos, em sua época, como “louco”. Considerado, pois seu legado literário revela um autor absolutamente lúcido e à frente do seu tempo.

A repercussão nacional e internacional da FLIP de 2017 tem sido muito positiva. A maioria das matérias e comentários ressalta o fato de que, pela primeira vez, o número de escritoras foi maior que o de escritores (52%) e o número de autores negros mais expressivo do que antes. Com orçamento muito menor, a festa apresentou inovações: a programação oficial (com entradas pagas) foi realizada na igreja matriz da cidade, e houve um telão na praça numa tenda coberta, com setecentas cadeiras. Para os debates mais concorridos os lugares foram insuficientes, e muitas pessoas assistiram de pé.

Em relação à Flipinha – dedicada à literatura infantojuvenil – ocorreram duas modificações, uma muito criticada (poucos autores convidados, em virtude do corte de recursos) e outra vista como positiva – a inserção da literatura infantojuvenil no conjunto da programação (antes, funcionava de modo paralelo). Mas a crítica não procede, no meu entendimento, pois o número de autores de literatura dita “adulta” foi também muito menor este ano.

Assisti à sessão de abertura – leitura da biografia de Lima Barreto pela pesquisadora Lilia Scwarcz, intercalada por trechos da obra do autor lidos pelo ator Lázaro Ramos, e a algumas das dezessete mesas de debates. Todas me pareceram interessantes. Destaco as que me tocaram mais profundamente.

Em nome da mãe  foi o título da discussão de Noemi Jaffe e Scholastique Mukasonga. Autora de O que os cegos estão sonhando”, em que narra, da perspectiva de três mulheres, como sua mãe sobreviveu a um campo de concentração nazista, Noemi estava muito emocionada.

Sholastique também foi a única sobrevivente do genocídio de Ruanda, seu país. Seu livro A mulher de pés descalços, cuja personagem principal é a mãe, foi um dos mais vendidos na Festa. A plateia aplaudiu o debate sobre o feminino, sobre a força da maternidade e do legado materno.

A singularidade da obra de Lima Barreto, a sua linguagem e o seu modo de ver e estar no mundo constituíram os temas da mesa Moderno antes dos modernistas, com Luciana Hidalgo e Antonio Arnoni Prado. A escritora teve uma excelente participação, enfocando a militância política do homenageado e a atualidade de seus posicionamentos e declarações.

Muito interessante também a mesa composta por Maria Valéria Rezende – uma das figuras mais prestigiadas e queridas da 15ª FLIP – e o rapper angolano Luaty Beirão. Ambos falaram sobre a arte como resistência. Luaty, que foi preso em 2015 e fez uma longa greve de fome na prisão, deu até uma canja – muito breve, mas aplaudida – cantando um dos seus expressivos e combativos raps.

Um dos pontos mais altos foi, sem dúvida, a última mesa, a antológica Amadas, em que duas escritoras negras reinaram, absolutas: Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves. Como homenageada da Festa, Conceição mostrou a força de sua literatura e falou sobre escritoras negras, enquanto cenas de sua vida eram projetadas para o público.

Da experiência, ficaram-me algumas impressões: a) literatura e vida se confundem; b) os organizadores e a curadoria acertaram ao aproximar a programação do público; c) quem gosta de literatura não deve perder a oportunidade de participar a FLIP, se puder.

Por último, vale também um lembrete à administração da cidade de Paraty, a fim de que fiscalize melhor os preços abusivos dos alimentos e dos serviços durante a FLIP e a qualidade das pousadas. Algumas não têm estrutura para receber hóspedes, são casas particulares, mas se apresentam nos sites profissionais como pousadas e cobram caríssimo, como se pousadas fossem.

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, professora universitária e escritora. Publicou romances, novelas e contos: (Véspera de Lua, romance vencedor do Prêmio Nacional de Literatura UFMG – 1988 e Rio das Pedras, novela, ganhadora da Bolsa de Produção Literária da Secretaria de Cultura do DF – 2001), Fome de Rosas (romance) e Pupilas Ovais (contos), além de participar de várias antologias. É autora de obras infantojuvenis e colabora na revista literária eletrônica Germina.

0
0sem comentários

Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

Deixe uma resposta

Siga @flordedende