Agua de Chocalho,

Itapuã e Rio Vermelho desafiaram tentativa de romanização das suas festas

Cleidiana Ramos

Foto: Adenilson Nunes/Secom Gov. Bahia

Para fechar o ciclo de verão duas festas acontecem nesta semana: amanhã, quinta, 1, tem a Lavagem de Itapuã e no dia seguinte, sexta 2, as homenagens a Iemanjá no Rio Vermelho. Estes dois eventos, além de mais 11 com características semelhantes, integraram minha jornada de pesquisa em busca do título de doutorado recém-adquirido ao defender a tese Festa de Verão em Salvador- um estudo antropológico a partir do acervo documental do jornal A Tarde.

Estas duas comemorações têm suas próprias dinâmicas, transformações, mas também algumas semelhanças. Em ambas, por exemplo, as tentativas de “romanização”, ou seja, um controle da proeminência católica não funcionou, diferentemente do que aconteceu com a Festa de Nossa Senhora da Conceição.

Ao analisar um conjunto de quase sete mil reportagens publicadas pelo jornal A Tarde de 1912 a 2016 (além de 2.670 imagens do mesmo acervo) consegui perceber vários níveis de disputas no vasto campo festivo da capital da Bahia. Em algumas décadas a disputa ocorreu de forma discreta, em outras mais acirradas, como nos anos 70 e 80.

Os desdobramentos da extensão das festas de verão do interior da igreja para o largo – o samba, o consumo de cerveja, o jogo e a bebida- foram frequentemente reprimidos por normas expedidas ora pelo poder público, ora pela Arquidiocese de Salvador. No caso das festividades para a padroeira da Bahia, o então cardeal arcebispo, dom Avelar Brandão Vilela chegou a ameaçar retirar os ritos católicos do dia 8 de dezembro, devido ao que considerava “excessos”, por conta da comercialização de cerveja nas barracas montadas em frente ao templo. (A Tarde, 9/12/1979, p. 3)

O largo da Conceição era onde muita gente ia aproveitar as noites do verão soteropolitano que tem o seu começo vinculado ao início das festas e não exatamente ao calendário oficial para o hemisfério sul (21 de dezembro). O seu marco, atualmente, é 4 de dezembro, dia da Festa de Santa Bárbara, mas já foi a última segunda de novembro, data da comemoração para São Nicodemus, patrono dos trabalhadores do porto.

Reconfigurações

A Festa de Itapuã matinha os ritos do período em que o bairro estava distante do centro da cidade e funcionava como um balneário, assim como o Rio Vermelho. Portanto, novenário, missas e procissões integravam a comemoração. Mas, por decisão do pároco local, a Festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do bairro, passou a ser celebrada em dezembro. (A Tarde, 27/1/1983, capa).

Houve protesto, especialmente dos jornais como A Tarde, mas os moradores partiram para salvar a festa. Em entendimentos com a prefeitura, a lavagem foi mantida e nos anos 2000 ganhou o Bando Anunciador e a primeira lavagem das escadarias da igreja com a iniciativa da saudosa Dona Niçu. No meio da manhã tem uma nova lavagem com o cortejo das baianas.

Lavagem de Itapuã acontece nesta quinta, 1º de fevereiro. Foto: Secom/Gov. Bahia

Balneário festivo

Já o Rio Vermelho, durante a análise do material de pesquisa, me surpreendeu com a sua característica de bairro festivo. Local de veraneio, começava sua folia já pelo período natalino com o desfile de ranchos e ternos e emendava com uma série de eventos preparativos para a Festa de Sant´Anna, a padroeira local que tem a sua festa litúrgica na Igreja Católica em 26 de julho, mas lá se festejava em fevereiro.

Até a década de 1940,  o presente para Iemanjá não tinha ainda visibilidade ao menos em A Tarde . Na reportagem de 6 de fevereiro de 1930, o jornal narra o movimento em torno do presente como algo jocoso para mudar de tom dez anos depois. Os holofotes midiáticos estavam no Bando Anunciador, que era uma festa com desfile de carros motorizados enfeitados, numa celebração da elite. O desfile do Bando, em vários momentos, foi citado como o grito de Carnaval na cidade.

À medida que estes eventos ganhavam proeminência, a Festa de Sant´Anna ficava mais ofuscada. No final da década de 1970, a paróquia local decidiu que a festa seria transferida para o seu dia litúrgico: 26 de julho. Neste período, Iemanjá já era a festa com maior proeminência no bairro.

Nesta sexta, a celebração para Iemanjá movimenta o Rio Vermelho. Foto: Daniel Meira/Secom Gov. Bahia

Dentre os eventos festivos que pesquisei, a Festa do Rio Vermelho é a que tem atraído o público mais jovem, pelo menos aparentemente. Acredito que as meninas e meninos que escolheram o bairro como seu point para curtir os fins de semana estão estabelecendo conexões interessantes com os festejos de Iemanjá. Tanto que até rave aconteceu no ano passado.

Transformações, maior ou menor visibilidade midiática, rearranjos, disputas em relação ao formato ou protagonismo transformam estas festas de largo em Salvador em um campo sedutor para quem, como eu, adora pesquisa e boas histórias. Estas conexões entre antropologia e jornalismo andam me desafiando cada vez mais.

Serviço:

Festa de Itapuã:

Quinta, dia 1º de fevereiro. Às duas horas da madrugada,  o Bando Anunciador desfila pelas ruas do bairro convidando para a festa. Em seguida, por volta das 5h30, ocorre a lavagem das escadarias da igreja. Às 10 horas tem o cortejo das baianas.

Festa do Rio Vermelho

Sexta, 2 de fevereiro. No fim da madrugada, por volta das cinco horas, o presente principal oferecido pelos pescadores, envolto em uma escultura, chega à Casa do Peso. Às 16 horas é levado para ser depositado em alto mar.

1+
0sem comentários

Escritor

Nasci em Cachoeira no recôncavo; cresci em Iaçu na Chapada Diamantina e vivo em Salvador. Transito, portanto, em três das áreas mais charmosas da Bahia. Sou jornalista, doutora em antropologia e mestra em estudos étnicos e africanos

Deixe uma resposta

Siga @flordedende

error: Este conteúdo é protegido, por favor não copie.