Colunistas,

Marcionílio Souza e seus LGBTs

Vivências diferentes de corpos semelhantes

Ícaro Stos Amancio

É muito comum nos mais diversos meios de comunicação social, em elaboração e promulgação de políticas públicas estaduais e nacionais, Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais, Transgêneros e Travestis interioranos sofrerem pela invisibilidade de suas especificidades geográficas/locais, justamente por não conseguirem acessar direitos que foram conquistados e afixados estruturalmente nas cidades centros ou capitais. Assim, a capa da invisibilidade é imposta aos LGBT’s em meio a experiências de corpos que habitam as capitais.

A partir desta escrita, é possível que o leitor reflita sobre uma cidade interiorana chamada Marcionílio Souza, localizada na Bahia, e se aproxime do contexto político dos LGBT’s, que banhados pelas águas do Rio Paraguaçu nadam contra as correntezas das invisibilidades sociais. E saibam que das vistas do Monte Zacarias, território de expressão de fé, esporte e lazer, os LGBT’s locais conseguem contemplar a beleza do pertencimento territorial da Chapada Diamantina e perceber a resistência como um dos poucos bens que os quase 11 mil moradores herdaram dos seus antepassados.

Pensar a visibilidade das cidades interioranas pode servir como perspectiva para recordar que a forma de labutar com a vida, em muitos aspectos, difere dos corpos que ocupam as capitais. Refletindo a respeito desses corpos que ocupam/vivem em espaços subjacentes torna-se possível ressaltar que as experiências dos corpos que existem nas periferias das capitais não se assemelham ou não contemplam plenamente as vivências dos corpos que vivem nas cidades interioranas, isso sem adentrar nas discussões a respeito daqueles corpos que habitam as zonas rurais.

É evidente que não se trata de um somatório de invisibilidades, mas trata-se das invisibilidades que acobertam as experiências de corpos que não vivem em grandes centros ou capitais e que a estes são impostos modelos de como agirem em sociedade de acordo ao que seu corpo carrega ou ao que seu corpo é carregado.

Em Marcionílio Souza não foi criado, até hoje, nenhum grupo ou movimento LGBT, tampouco a cidade foi agraciada com algum evento contra discriminação dessa população, apesar de existir homoafetivos em seu território. Homoafetivo é um termo criado para designar afetos entre pessoas do mesmo gênero independente de orientação ou opção sexual e não está diretamente ligado à prática sexual.

Devido à ausência de políticas públicas de conscientização e combate às violências, os LGBT’s ficam mais vulneráveis aos ataques físicos e simbólicos. Para muitas pessoas, Marcionílio é uma cidade tranquila, mas para outros esta cidade pode se tornar um local de repressão. Para perceber o quanto as/os LGBT’s dessa cidade se sentem reprimidos, basta observar a quantidade de LGBT’s que migram para outras cidades e não é somente em busca de cursar o ensino superior ou vagas de emprego, mas porque enxergam em outras cidades oportunidades de exercer suas práticas afetivo-sexuais sem se preocupar com comentários nas semanas seguintes.

Refletir a ridicularização das práticas sexuais dos LGBT’s é mergulhar em um país que se estrutura em práticas homofóbicas, daí pensar os meios de comunicação social como um veículo de ideias preconceituosas é recordar os diversos personagens das novelas, minisséries e outros programas de televisão que faz do gay, da lésbica, da/do bissexual, travesti, transexual e transgênero indivíduos engraçados e ridículos. Assim como pensar a intolerância é entender o papel que as igrejas cristãs exercem na repressão sexual das pessoas, e por outro lado, o papel das igrejas cristãs também para a rejeição por parte da sociedade aos LGBT’s.

É evidente que por pertencer a esse sistema de aversão a bissexualidade, homossexualidade e transsexualidade as/os moradores de Marcionílio vão reproduzir muitas vezes essas lógicas repressoras, porém é de bom tom ressaltar a existência de uma população que culturalmente respeita o espaço do outro e pessoas que conscientes dos preconceitos sociais defendem os direitos da população LGBT, mesmo não pertencendo a esse grupo.

A cruz carregada pelas pessoas LGBT’s de Marcionílio Souza é feita com o pau da aroeira, devido à invisibilidade causada pelos movimentos sociais LGBT’s e pelos corpos que dizem ser espelhos para essas pessoas interioranas, mas o chão que essas e esses LGBT’s marcionilienses pisam é de resistência histórica e aqueles que gradativamente regressam para essa pacata cidade trazendo suas maquiagens, roupas, pochetes, bonés, cabelos longos e curtos, assim como suas formas de se expressar, mostram que existem diversas formas de resistir às opressões, inclusive a migração.

A estação ferroviária é uma das marcas coloniais da cidade. Foto: Icaro Stos Amancio

Aqueles LGBT’s que resistem como cactos e não migraram para outros lugares, e descobriram de suas formas a magia que é ser pleno em meio as invisibilidades sociais é somente uma amostra que a Estação Férrea Tamburi pode estar sem funcionamento, mas o trem ainda anda!

Ícaro Stos Amancio é formado no Bacharelado em Humanidades (Unilab) e estudante do curso de Pedagogia (Unilab).  Foi bolsista do projeto Interseccionalidade, uma categoria útil de análise da dominação: gênero, orientação sexual, raça e classe no entrecruzamento das relações de poder. É integrante do Grupo de Estudos FEMPOS/PósColonialidade, Feminismos e Epistemologias Anti-Hegemônicas (UNILAB). Desenvolve pesquisas sobre sexualidades dissidentes em Cabo Verde e sexualidade em quilombos baianos.

 

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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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Luuh Guedes

Ícaro Stos Amancio, você me representa.
Um lacre é um lacre.
Bjus.

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