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Maria Bethânia, uma voz fazedora de arte e ciência

Deus me deu voz para cantar, inteligência para perceber e sensibilidade para me expressar (Maria Bethânia)

Marlon Marcos

Faz-se desnecessário separar a potência criativa da arte da empreendida pela ciência. Quem assim faz, o faz para efetivar descabidas hierarquias e afirmar uma sobre a outra com o intuito de transformar o seu fazer mais importante frente ao alheio.

Ao invés de separar quero dialogar por dentro da noção de amálgamas entre arte e ciência, usando como exemplo a cantora baiana Maria Bethânia. Uma artista da cultura popular brasileira, com mais de 50 anos de carreira, que desde o início escolheu caminhos criativos que pudessem traduzir a sua leitura de Brasil como identidades e como expressão da sua gente formadora da sensibilidade artística da cantora.

Ao ecoar Carcará nos idos anos de 1960, Maria Bethânia fez protesto, se afirmou como uma intérprete que lia o Nordeste de seu país, falava da dureza da seca e reagia com a beleza que sua presença negro-mestiça imprimia aos holofotes cariocas e, por extensão, a todo Brasil.

 

O fazer da artista uniu sensibilidade à inteligência e saiu a desenhar possibilidades de fruição, educação, tradução, problematização, afirmação estética e identitária, perfilações das heranças indígenas e africanas na civilização brasileira, destacando os cenários culturais da Bahia que fica entre o Recôncavo e Salvador.

Ao cantar do seu jeito, ao escolher firmemente compositores e repertório ela se inventou como autora em sua carreira de intérprete da canção, movida por intuição e vontade de espelhar as coisas que a comoviam e a faziam soltar a voz, compondo espetáculos musicais que preservam a memória inventiva de parte dos brasileiros (a eleita pelo talento da artista aqui em questão), ela fez uma espécie de antropologia da beleza, utilizando-se de recursos lítero-musicais que favorecessem a uma narrativa visceral das coisas brasileiras se aproximando das etnografias de um Mario de Andrade e da literatura de Guimarães Rosa.

 

Importante frisar que o texto inicial indica passado, mas felizmente, tudo isso continua em vívido presente numa obra que nos últimos 20 anos circunscreve-se no sentido que busco neste artigo: a voz fazedora de arte e ciência da grande artista brasileira que é Maria Bethânia.

Brasileirinho, disco de 2003, é um monumento estético à cultura brasileira, mas também, descrições literárias e antropológicas das nossas religiosidades populares, visíveis nisso que chamamos de catolicismo popular sob as influências indígenas, negras, caboclas e sertanejas. Além da música, a poesia e a prosa literária dão sustentação ao projeto intelectual e artístico que Maria Bethânia apresenta ao Brasil e ao mundo, ao longo da sua longeva atuação no nosso cancioneiro.

Rosas dos Ventos, Ciclo, Maria, Âmbar, Imitação da Vida, Mar de Sophia, Pirata, Encanteria, Meus Quintais, estão, para mim, como síntese desta atuação artístico-científica da cantora autora, verdadeira doutora em assuntos de literatura em língua portuguesa e cenas cotidianas brasileiras descritas pela voz e interpretação desta altiva antropóloga da beleza do nosso povo.

No meio de tudo isso, como não reconhecer o papel educativo, vital para as ciências sociais e humanas, de uma artista que espraiou pelo país Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sophia de Mello Breyner, Fauzi Arap, José Craveirinha, Neide Archanjo, Guimarães Rosa, Vinicius de Moraes, Ferreira Gullar, Mario de Andrade?

E Clarice Lispector. E Fernando Pessoa, poeta português, paixão grande dos brasileiros, sobre quem ela diz:

“Poeta da minha vida, fonte para minha sede. Poeta que sustenta a minha respiração, o ritmo desassossegado do meu coração”.

Compreender o fazer artístico de Maria Bethânia dentro dos limites das ciências sociais e humanas, me faz acreditar no que mais busco: uma antropologia da beleza.

A que ela faz.

marlon-foto-marielson-carvalho-2Marlon Marcos é poeta no jornalismo e na antropologia

Foto: Marielson Carvalho

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04 comentários

Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

4 Comentários

Diosmar Filho

A poesia de Marlon.

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Heloisa Helena Costa

Querido Marlon, estou em Lisboa curtindo algumas das belas fontes inspiradoradas da nossa Betania. Parabéns pelo artigo emocionado, pleno de conteúdo intelectual e artístico. Abraço grande . Heloisa Helena

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ISABEL CRISTINA ROCHA

Querido professor, fiquei emocionada com o seu artigo,pois nunca ouvi ou li alguém falar de Maria Bethânia com tanto suavidade.

Parabéns,

Isabel Rocha( sua ex-aluna do curso de pedagogia da Uneb.

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Marcia Regina

Belíssima reportagem! Parabéns!

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