Agua de Chocalho, Cultura,

Memórias sobre as artes e ofício de vaqueiro

Eu sou neta,  sobrinha e prima de vaqueiros. Geralmente, em férias, fazia um monte de perguntas a  Ivo Almeida, o meu tio que desenvolveu o ofício de forma mais constante e que, agora, distante do trabalho ao qual se dedicou durante a maior parte de sua vida, conta boas histórias. Ficava encantada ao vê-lo chegar todo encourado voltando de um dia em meio à caatinga.

A rotina dos vaqueiros começa cedo. De madrugada, eles já estão de pé para separar o gado e ordenhar as vacas de leite. Passam seus dias em meio à caatinga com o desafio de adaptar o corpo às pesadas roupas de couro. São elas a sua armadura contra os espinhos da caatinga. Aprendem a reconhecer os desafios do mato fechado, como evitar picada de bichos peçonhentos. Sabem a moita em que se pode pisar e aquela que se evita.

Não existe cavalo arisco para os vaqueiros. Eles sabem os segredos de adestrá-los e até montá-los em pelo, sem arreios ou sela. E esses homens, no fim da tarde, enchem a caatinga com vozes fortes e sonoras na técnica do “aboio” que é a sua deixa para conduzir o gado. Nas regiões dos sertões baianos o berrante não é comum. É na garganta mesmo.

Vaquejar ainda é um ofício essencialmente masculino. Não conheci vaqueiras, mas elas já devem estar por aí, pois as sertanejas não abrem mãos de desafios. Mas mulher de vaqueiro, de certa forma, conhece certas peculiaridades do ofício do marido- como tratar de um bezerro “enjeitado” ou órfão e  ainda mais de cabritos nessa situação.

O mesmo acontece com os filhos dos vaqueiros.  Fiquei impressionada no dia em que minha tia Celestina Almeida Rebouças, carinhosamente  chamada em família de “Cecé”,  me contou como aprendeu a costurar roupas, sapatos  e outros adereços usados pelos reis da caatinga para ajudar seu pai, meu avô Herculano Almeida.

Não o conheci, infelizmente.  Ele morreu no mês anterior ao meu nascimento em 1975.  Só o vi em fotos. Numa delas está com seus trajes de vaqueiro, elegante (ver imagem abaixo). Ficou órfão cedo e acabou chegando à João Amaro onde casou com Idalina Sodré e teve os filhos: Cecé, Ivo, Ida (já falecida), Nazinha (minha mãe), Martins, Mundinho e Zéu.

Herculano Almeida, mestre na arte de confeccionar roupas e acessórios para vaqueiros, ofício que desenvolveu por muitos anos. Foto: Arquivo de família

A venda de roupas e acessórios era uma forma de vovô aumentar a renda familiar. Trabalhou para fazendeiros como vaqueiro e administrador- às vezes combinado as duas ocupações- por quase 20 anos até conseguir a dádiva para qualquer um nesse ofício: ter suas próprias terras e rebanhos.

Para confecicionar as peças era usado o  couro de bois e bodes abatidos. Sertanejo, aliás, tem um olhar diferenciado sobre o animal que abate: aproveita tudo. É uma forma de respeito e de não banalização da outra espécie, a meu ver. Herculano dominava a habilidade do início ou seja do momento de curtir o couro – usando gordura e calor do sol- até o momento de fazer o acabamento com bordado e o uso de linha da “seda do porco”,  como conta tia Cecé nos vídeos abaixo:

O início do processo

O acabamento

 

Encontrar a memória  desses saberes é para mim uma grande riqueza. Obrigada, tia Cecé.

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04 comentários

Escritor

Nasci em Cachoeira no recôncavo; cresci em Iaçu na Chapada Diamantina e há 24 anos vivo em Salvador. Transito, portanto, em três das áreas mais charmosas da Bahia. Sou jornalista, doutora em antropologia e mestra em estudos étnicos e africanos.

4 Comentários

Alzira Costa

Belo texto, Cleidiana Ramos.
Um importante registro de um ofício que está quase desaparecendo.

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Cleidiana Ramos

Obrigada, Alzira Costa.

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Agamenon Mendes Cerqueira

Lito texto Cleidiana, cheio de emoção.
Também sou Neto de Vaqueiro e ouvia muitas histórias da lida no campo, da viagens e dos mistérios vivenciados por ele nas matas do Sertão. Sou da cidade de Itaberaba, pertinho de Iaçu. Pesquiso sobre o desenho das marcas de ferro, o brasão das famílias sertanejas que identificam sua propriedade, e defendo em breve (11/09/17) na UEFS.
A cultura do Vaqueiro não pode ser esquecida.
abraço e parabéns.

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Cleidiana Ramos

Que pesquisa linda, Agamenon. Nos deixe informadas sobre os seus desdobramentos. Estamos aguardando. Um grande abraço.

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