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Mulheres contra assédios e retrocessos

Nádia Conceição

Podemos considerar 2017 como o ano do levante feminino. Isto devido aos inúmeros casos de assédios sexuais denunciados tanto contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quanto os escândalos em Hollywood. Atrizes, modelos e funcionárias que passaram pelas produtoras Miramax e The Weinstein Company vêm denunciando casos de assédio sexual, incluindo estupro, atribuídos ao produtor americano Harvey Weinstein. Segundo os relatos, são pelo menos 30 anos de abusos. O alvo: mulheres jovens que buscavam uma carreira na indústria cinematográfica.

Infelizmente, os abusos sexuais ocorridos em Hollywood e com mulheres que trabalham com executivos não se tratam de fatos isolados, sobretudo no que tange à mulher no mercado de trabalho. A verdade é que, mesmo com iniciativas da ONU Mulheres e outras agências das Nações Unidas, e de ONGs que lutam pelos direitos das mulheres, a exemplo da criação do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres – 25 de novembro-, não se conseguiu ainda dar um basta no machismo imperante no mundo. Temos avanços notórios, vitórias e conscientização, sobretudo de homens, mais ainda precisamos de mais.

Os casos silenciados durante 30 anos em Hollywood foram uma demonstração de que mulheres, amedrontadas, viraram reféns de seus algozes. Era isso ou o fracasso profissional. Contudo, apesar de estarmos no ápice da liberdade sexual, ainda precisamos nos lembrar de que a luta das mulheres é uma constante que deve ser reforçada diariamente, a todos os minutos e todos os segundos, por homens e mulheres em toda parte.

Durantes anos, e até nos dias de hoje para alguns, as mulheres foram consideradas como peças acessórias nos locais onde os homens era maioria e tidos como melhores profissionais. A luta de nossas antecessoras, fundamentais para que eu possa estar me expressando aqui neste espaço, não foi fácil; a nossa também não tem sido. Mas agora podemos falar, gritar, exigir punição. Mesmo assim, não podemos esquecer que os assediadores estão em todos os espaços e são as figuras mais fora de suspeita que se possa imaginar: nas universidades, nas escolas, nas redações de jornais e até em nossa vizinhança; nos espaços onde mulheres atuam ativamente e onde decidiram estar por prazer; locais onde eram impedidas de estar e que se constituem como um espaço de resistência e demonstração de capacidades.

Batalha

Mas como nos comportamos diante de acusações contra um chefe de estado, que tem grande influência no mundo, acusado por diversas mulheres de assédio sexual e ainda assim se manter intocável no poder? Eu considero retrocesso e, diante disso, as lutas feministas parecem esmagadas e tornadas insignificantes para muitos e muitas.

De certa forma, as denúncias foram impulsionadas, também, pelo fato de 2017 ter sido eleito o ano em que temas como liberdade sexual, feminismo, empoderamento e igualdade de gênero estiveram em conversas diárias. Porém, os dados da violência resultante do machismo ainda são assustadores, alarmantes e entristecedores. Em 2017 também foi comprovado que a palavra feminismo foi a palavra mais buscada em 2017. Isso foi graças a importantes campanhas como #meuamigosecreto e #primeiroassedio, fundamentais para quebrar o silêncio vivido por mulheres diante dos assédios e da violência, e se tornaram válvulas precursoras para que estes tipos de crimes fossem denunciados e, os assediadores, punidos.

Avançamos, mas no caso brasileiro tivemos diversas investidas para retrocedermos: primeiro através do fim da Secretaria de Políticas para as Mulheres, que tinha status de ministério e foi absorvido pelo Ministério de Direitos Humanos; em  2017 veio o ataque da PEC 181 que tenta  impedir o aborto mesmo em casos já legalizados no Brasil, além do aumento de casos de assédios em transportes coletivos.

Se trazermos dados da realidade brasileira, divulgados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou um estupro a cada 11 minutos em 2015, 10% do total dos casos que realmente acontecem e que pode chegar a quase meio milhão de estupros a cada ano. Dados ainda, do Ipea, mais assustadores, é que cerca de 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes, crimes cometidos por homens próximos às vítimas. O Ministério da Saúde divulgou dados de 2016, mostrando que em média são notificados 10 estupros coletivos todos os dias no sistema de saúde do país, sendo que 30% dos municípios não fornecem estes dados ao ministério.

No mundo, os números só aumentam. Isso porque 15 milhões de adolescentes de 15 a 19 anos já sofreram abuso sexual, sendo que uma, em cada quatro garotas dos EUA, sofrem abuso sexual antes de completarem 16 anos e um em cada cinco jovens sofrem abuso sexual dentro das universidades dos EUA.

Mesmo com uma ampliação dos espaços de discussão acerca do tema, ainda é necessário expandir o público que tem acesso a estas discussões. Isso porque, mesmo sendo a maioria mundial e do nosso Brasil, nós, mulheres, ainda não conseguimos praticar a colaboração, sobretudo quando as questões atingem mais as mulheres negras. No caso dos assédios em Hollywood, essa sororidade também não é uma máxima, tendo em vista que houveram mulheres que defenderam o “direito” do homem “flertar”.

Ao que me parece o caso hollywoodiano em nada se assemelha a flerte. E quem, atualmente, sai de casa sem saber a diferença entre um flerte e um assédio, certamente não está preparado para viver saudavelmente em sociedade. E convenhamos: usar o poder de contratação em troca de favores sexuais nada tem de flerte. Mulheres que deixaram seus sonhos de ser atrizes e modelos por se sentirem inferiorizadas, pelo fato de não transarem com seu produtor ou contratante é repugnante. São casos de normatização da objetificação da mulher, tendo-as como incapazes de exercerem suas profissões, apenas por serem mulheres. Neste caso, se entrarmos em defesa do “direito” do homem em flertar, caímos num abismo da sexualização da mulher, estigma que tanto recusamos e que lutamos para não normatizar.

Queremos, como mulheres e cidadãs de direitos, respeito. E que, acima de qualquer coisa, sejamos julgadas pelas nossas competências profissionais e não por nossas escolhas sexuais, muito menos que sejamos obrigadas a transar com os potenciais empregadores, para não perdermos a chance de seguir em uma determinada carreira, pois não somos objetos. Precisamos e continuaremos na luta por mecanismos ágeis e confiáveis de punição para quem se acha no direito de acuar as mulheres e obrigá-las, por medo e vergonha, a silenciar diante da repugnante situação.

Mulheres, não podemos nos calar, temos que, unidas, continuarmos a luta, pois as futuras gerações, meninos e meninas de hoje, precisam de nossa persistência para um mundo melhor, mais justo e igualitário.

Nádia Conceição é jornalista, mestre em Cultura e Sociedade com ênfase em Cultura, Comunicação, Saúde e Meio ambiente; especialista em Comunicação Estratégia e Gestão de Marcas, ambas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade também pela UFBA.

 

 

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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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Suzana Santos Batista

Linda matéria. Parabéns!

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