Colunistas,

Narrativas banto em redes educativas

“– Meu nome é Yago, estou aqui há três anos […] aprendi muitas coisas aqui e estou aprendendo ainda […]

– E qual é o seu Nkisi [1]?

– Xan… “Zazi[2]”.

(Kambono Yago, da Casa Raiz do Benguê Ngola Djanga Ria Matamba)

Quando pisei no terreiro de candomblé Angola pela segunda vez na vida, o fiz como pesquisador. Já estava cursando o doutorado no ProPEd/UERJ[3], sob orientação da professora-doutora Stela Guedes Caputo. Para o projeto de pesquisa, defini o seguinte tema de estudo: Corporeidades, escritas e oralidades: os processos educativos de crianças nos terreiros de candomblé Angola. Observando o tema de perto parece um tanto fragmentado em três conceitos distintos, mas creio que não se trata disso.

Nossa tentativa é falar de conceitos que se entrecruzam e nos fazem pensar um pouco mais sobre os processos educativos nos terreiros de candomblé.

Os caminhos no campo, as oralidades do campo, são imensas. Tudo pode ser percebido, bem como passar despercebido. As anotações, análises, gravações, filmagens, trazem um conglomerado de símbolos que estão a nossa disposição. É esse “conglomerado” que me dá suporte com base, sobretudo, no protagonismo das crianças nos terreiros de candomblé Angola, em especial, na Casa Raiz do Benguê Ngola Djanga Ria Matamba, de Tata Ananguê[4], em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense (RJ).

Pode parecer uma afirmação pretensiosa, uma vez que ainda não trago elementos suficientemente robustos e consistentes, em termos quantitativos, já que estamos iniciando a pesquisa, para um relato mais analítico. No entanto, os caminhos do campo estão aguçando meus sentidos e provocando, mesmo com possibilidades de tropeços, um olhar etnográfico para as narrativas e os corpos dessas crianças que estão sendo educadas junto com adolescentes, jovens e adultos. É na experiência cotidiana que me debruço. No respeito que me integro aos sujeitos que estão disponíveis a se colocarem, a narrarem suas vivências com orgulho a um desconhecido, um “estranho no ninho”.

A epígrafe que utilizo no presente artigo foi transcrita das conversas que tive com o Kambono[5] Yago, um menino de 13 anos, uma pessoa com deficiência física que demanda necessidades especiais. Aparentemente, Yago desenvolve com muito amor e destreza suas funções cotidianas no terreiro: canta, se locomove com suas muletas para auxiliar os Nkisi[6] (Inquices), toca agogô[7] etc.

O que mais me chamou a atenção, na conversa com o menino Yago, foi quando lhe perguntei qual era o seu Nkisi. O menino titubeou ao responder Zazi[8]. Naquele instante ficou perceptível que Yago ia dizer Xangô. No entanto, ele imediatamente se corrigiu.

Essa experiência me remeteu a dois fatores que considero importantes para a pesquisa:

Mesmo que o terreiro de Tata Ananguê reforce e resgate os vínculos culturais, linguísticos e estéticos com a chamada cultura dos “povos Bantus”, ainda são possíveis associações entre Orixás e Nkisis, por parte de seus membros.

Mesmo com o indício de associar Xangô à Zazi, em sua resposta repentina, corrigida rapidamente, Yago correspondeu à sua identidade cultural e religiosa, a sua visão de mundo. Imediatamente me estanca a pergunta: o que levou Yago à imediata correção?

Essas inquietações, possivelmente indagações sem respostas, se encontrarão nos caminhos a percorrer no campo, nas narrativas dos sujeitos nos cotidianos dos terreiros de candomblé Angola e, possivelmente, nas relações com o idioma kimbundu[9]. Bastou dizer a palavra Nkisi para que o menino compreendesse que não se tratava de Xangô, era sobre Zazi que se tinha de falar naquele instante. Não era preciso relacionar Nkisi a Orixá na busca por entendimento. A palavra constrói sentidos; o kimbundu, o terreiro de candomblé, também educa nesse sentido.

Acreditando que a educação se processa além dos muros da escola, optei em pensar os terreiros de candomblé a partir do conceito de redes educativas, e suas práticas cotidianas enquanto tessituras de conhecimentos mantidos pela tradição através da oralidade. Por isso que, quando afirmamos que “aprendemos com as crianças dos terreiros”, não se trata de uma figura de pensamento, aprendemos e muito. Aprendemos, ensinamos, tornamos a aprender… Foi isso que o menino Yago nos ensinou naquela conversa. Com um simples titubear de palavras, foi possível aprender e refletir sobre uma imensidão de significados que seu terreiro de candomblé o ensina.

[1] Nkisi (inquisse) De Angola e Congo. Os Nkisi  são as divindade da natureza manifestadas no candomblé de angola. Segundo a mitologia todas essas divindades foram criadas por Nzambi (Deus Supremo).
[2] Nzazi (Zazi). Equivale a o raio, a representação da justiça dos seres humanos.
[3] Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
[4] Tata Ananguê (Jeusamir Alves da Silva), presidente da Casa Raiz do Benge Ngola Djanga Ria Matamba, em Três Corações, Nova Iguaçu/RJ e da Confederação Nacional dos Candomblés de Angola e dos Costumes e Tradições Bantu no Brasil (CNCACTBB), professor e especialista em História e Cultura Afro-brasileira, Ensino de História e Ciências da Religião pela UCAM e graduado em História pela UNOPAR.
[5] São as pessoas que não entram em transe e exercem diversas atividades, além de diversas responsabilidades dentro de um ritual sagrado no terreiro de candomblé Angola.
[6] Nkisi, plural Bankisi: O Nkisi é uma força da natureza como o vento, a chuva, o raio, as águas doces, as águas salgadas, etc. O Nkisi também pode ser considerado a própria magia que se concentra nos elementos da natureza. No Nkisi se concentra o ato transformador das coisas e dos seres.
[7] Instrumento de percussão feito de metal que marca o ritmo dos atabaques.
[8] Nkisi relacionado ao fogo e a justiça, amplamente associado a Xangô dos Iorubás.
[9] Língua africana falada no noroeste de Angola, incluindo a capital Luanda. É uma das línguas bantas mais faladas em Angola, onde é uma das línguas nacionais. O português tem muitos empréstimos lexicais desta língua obtidos durante a colonização portuguesa do território angolano e através dos escravos angolanos levados para o Brasil.

 

Marcos Serra é ator, professor de Artes Cênicas na SME (Secretaria Municipal de Educação do RJ) e na SEEDUC (Secretaria de Estado de Educação do RJ). Formado em licenciatura em artes cênicas pela UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) com atuação no Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias (NEPAA) é mestre e doutorando em educação, pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).Participa do Grupo de Pesquisa Kékéré, coordenado pela professora-doutora Stela Caputo, onde se pesquisa o protagonismo de crianças nos terreiros de Candomblé (Jeje-nagô e Banto).

 

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Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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