Mandacaru,

A natureza do castigo

Foto: Dodó Rebouças

O último período marcado pela seca no nordeste foi recentemente, em 2012-2013, e embora esta seca tenha castigado quase 300 municípios nordestinos, não foi a maior seca da história da região. Em 1979 iniciou a seca mais prolongada já registrada no nordeste brasileiro, cessando somente em 1985. Foram 7 anos de estiagem, com ápice em 1981 e, até o final, mais de 3,5 milhões de pessoas morreram, a maioria crianças e por desnutrição. A seca tem sido há anos um castigo natural.

Com histórico grande de estiagens problemáticas estão sempre sendo pensados projetos que solucionem ou amenizem o problema. No início deste mês de novembro, órgãos como a Fundação Nacional de Saúde, Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), Exército e a Defesa Civil reuniram-se para discutir formas de funcionamento e execução do projeto chamado Adutora do Sertão, a alternativa vista até agora como solução mais viável e definitiva.

A Adutora do Sertão é um projeto elaborado pela CPRM e pensada para abastecer mais de 50 municípios do estado do Piauí. A água deve ser captada dos poços subterrâneos do Vale do Gurgueia, passando para a adutora até o município de Caracol, ponto mais alto, onde acontecerá a distribuição para os demais municípios. A estimativa de custo é de R$1 bilhão.

Embora a seca seja um fenômeno natural e que diversos estudiosos acreditem que justamente por isso não se combate mas aprende a conviver com ela, diversos fatores não naturais contribuem para a piora na estiagem, como o desmatamento para formação de pastos e para extração de madeiras, que afetam a capacidade da terra de reter a água, por exemplo. No entanto, a explicação mais conhecida para as secas em todo o mundo é o fenômeno El Niño.

Fenômeno

Entenda como funciona o fenômeno El Niño através do vídeo ilustrativo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE):

Métodos de amenização

Além da Adutora do Sertão, outros métodos já foram pensados e postos em prática. Em 2013, o governo investiu R$9 milhões para o combate à seca no nordeste. No mesmo ano, a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (a EBDA, agora extinta), confirmou a recuperação da área desmatada da caatinga. Algumas das medidas tomadas foram a construção de cisternas, açudes e barragens; a instalação de poços artesianos (até 2018 estão previstos mais de 2.500 novos poços); além de incentivo público à agricultura adaptada ao clima e solo da região, com sistemas de irrigação e distribuição de água através de carros-pipa em situações de emergência.

Reza a lenda

Algumas histórias míticas sobre a seca permeiam o imaginário popular, como o castigo de Deus e da própria natureza aos homens que desmatam a terra ou como a espera de que um dia o mar vire sertão e o sertão vire mar, como disse Antônio Conselheiro (líder do movimento social que esperava milagre da salvação da seca, combatido pelo Exército, resultando na destruição total da cidade de Canudos).

Mas, uma lenda indígena conta de um jeito diferente:

O Sol era uma pessoa chamada Kuandú que tinha três filhos: o mais velho era o sol da seca; o mais novo, o sol que saia na chuva; e o do meio era quem ajudava um dos dois irmãos quando estivessem cansados. Há muito tempo, um índio teria comido o pai de Kuandú, o Sol, e por esta razão ele queria se vingar. Um dia Kuandú brigou com Juruna, uma palmeira inajá, que lhe acertou a cabeça com um cacho de coco, fazendo tudo escurecer. Desde então, a esposa do sol Kuandú fazia com que os filhos revezassem ao sair de casa. Sendo assim, quando é tempo de seca, é o filho mais velho de Kuandú que está fora de casa.

A fé nas águas de março

Março é conhecido por ser um mês chuvoso, já diria Tom Jobim e a meteorologia. As chuvas neste período não têm nenhuma relação cientificamente comprovada com o dia de São José (19 de março), mas ainda assim os devotos do santo apertam os terços durante a novena pedindo por chuva e atribuindo esta ao santo. As chuvas nesta data eram comuns por conta do equinócio de outono, que acontece entre os dias 20 e 21, mas com as mudanças naturais dos últimos anos esta previsão não tem correspondido.

Talvez as chuvas tenham sido atribuídas ao santo pela coincidência do fenômeno no dia comemorado, mas o fato é que os agricultores fiéis acreditam que se chover no dia de São José, a colheita do inverno será farta. Este é outro fator negado pelos meteorologistas. Entre as negações da ciência e força da fé, não custa, até hoje, que estes fiéis façam a sua “fézinha”.

A dança da chuva

Algumas simpatias são conhecidas por fazer chover e nenhuma delas tem alguma explicação plausível, assim como a relação entre São José e as chuvas de março, mas fazem parte do imaginário popular e da formação da cultura sertaneja. Uma das simpatias feitas no dia do próprio santo é a lavagem da cruz, geralmente localizada em frente à igreja matriz da cidade, cantando as ladainhas em pedido: “Meu divino São José/ aqui estou a vossos pés/ dai-nos chuva com abundancia/ meu Jesus de Nazaré”.

Outra simpatia conhecida é a dança da chuva, que a maioria das pessoas conhecem graças a Turma do Pica-Pau, no episódio “Ugue Ugue na chuva”.

A dança da chuva é conhecida por serem feitas por índios. Na verdade, diversos povos de tribos usam da superstição em sua cultura, os Maias, Astecas, tribos da América e da África e até mesmo os Antigos Egípcios. Estudos apontam que os líderes dessas tribos tinham conhecimentos meteorológicos e sabiam a hora certa para começar a chuva e obter o resultado desejado. Há quem diga ainda, que a dança servia como agradecimento e não como pedido. Embora não tenha registros de serem feitas no sertão nordestino, podemos considerar que nossa ladainha a São José seja, no fim das contas, a dança da chuva do sertão.

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Escritor

Susana Rebouças, 23 anos. Graduada em Comunicação com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Jornalista da Flor de Dendê.

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