Mandacaru,

O cinema nordestino e a representatividade do povo forte

“Representatividade é tudo” é umas frases que temos mais ouvido ao longo destes poucos anos de emponderamento das minorias no Brasil. O nordestino é castigado e massacrado não só pela seca (com a qual é quase que impossível vencer uma luta), mas pelo preconceito sulista que em pleno século XXI continua a existir, como se fossemos (digo assim pois sou das nordestinas sertanejas mais enraizadas que possam existir) os animais exóticos do país. Embora não muito valorizado, somos um dos povos mais representados pelo cinema brasileiro, que embora estereotipado nas produções mais encantadoras, não é feita esta representação de maneira vulgarizada.

A personificação do nordestino mais divulgada dentro do cinema é de uma das figuras mais famosas, populares e símbólicas da região: a figura do cangaceiro, em especial do famoso Lampião. O primeiro filme de grande sucesso com o ícone nordestino foi Baile Perfumado (1996), dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas, que conta a saga do libanês Benjamin Abraão, que conviveu com o bando de Lampião e foi o único que conseguiu registrar o cangaceiro em vida. O filme foi premiado no Festival de Brasília.

Outro grande filme famoso (e aqui confesso um dos meus preferidos ao lado de Lisbela e o Prisioneiro dentro do cenário cinematográfico nacional), que também envolve cangaceiros, o catolicismo, a pobreza, a seca e inúmeros outros elementos regionais/sociais é a história dos dois grandes amigos, Chicó e João Grilo, em O Auto da Compadecida, filme baseado na peça de Ariano Suassuna, de 1995. O filme que conta a história das malandragens de João e a covardia de Chicó, foi a maior bilheteria de 2000, visto por mais de 2 milhões de pessoas. Além disso, a história ainda é incrementada com a paixão de Chicó, que junto à esperteza do amigo consegue o coração da moça, filha do homem mais poderoso da região, Rosinha.

O filme Abril Despedaçado conta uma situação muito comum num passado não tão distante pelo interior do nordeste, situação esta que talvez tenha formado a representação de “cabra macho”, “homem viril” que mantém o imaginário popular: a vingança. A trama, com atuação de ninguém menos que Rodrigo Santoro, conta a história de um jovem de 20 anos que é incentivado pelo pai a vingar a morte de seu irmão mais velho, assassinado por uma família rival.

Há 5 anos, o cinema nordestino lançou uma comédia inovadora, um filme inteiro falado numa espécie de dialeto que chamam de cearensês (com o sotaque cearense), em Cine Holliúdy. Como todos sabemos, o Brasil é um país com uma enorme diversidade linguística, e cada região tem um jeito próprio, peculiar e lindo de falar, com novas palavras não comuns a todos no idioma. Dentro do próprio nordeste essa diferença linguística existe de maneira muito considerável, de modo que nós, baianos, encontramos dificuldades em interpretar alguns termos usados no cearensês de Cine Holliúdy. A trama passa na década de 70, que conta a história de Francisgleydisson, proprietário do Cine Holliúdy, um pequeno cinema da cidade, e que tenta manter vivo o cinema perdido com a chegada da televisão as pequenas cidades do interior do estado.

Uma das produções mais recentes sobre o nordeste, embora fuja um pouco a realidade dos nordestinos na representação de pobreza, mas que conta com a excelente representação da fé deste povo, é o filme Reza a Lenda, com Cauã Reymond e Sophie Charlotte, que conta a história de um grupo em busca de uma santa, para que uma lenda se torne realidade: a santa faça chover no sertão.

Entre outras inúmeras produções cinematográficas incríveis e de uma representatividade artística apaixonante para os próprios nordestinos, que se enxergam em muitos detalhes, sejam na fala diferenciada ou nas histórias contadas, eu desfaio você que é e que não é nordestino a assistir o maior número de filmes regionais e descobrir qual deles consegue, de alguma forma, lhe representar mais. Valorizemos o cinema regional!

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Escritor

Susana Rebouças, 23 anos. Graduada em Comunicação com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Jornalista da Flor de Dendê.

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