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O gerúndio, Ludmila e Montaigne

 Jocélio Teles dos Santos

Um eminente historiador africanista e também membro da Academia Brasileira de Letras num jantar na capital soteropolitana vociferou a indignação: não ao gerúndio!  Odeio o gerúndio!  Até a mesa do restaurante tradicional em comidas baianas e localizado no Dique do Tororó tremeu.

Por certo, ele lá tinha razão. E muitos de nós concordaríamos.  Por que não ir direto ao assunto, e dizer que estou indo, tou fazendo, ou algo que o valha?  É provável que o provecto e nobre africanista revelasse o frescor de sua juventude, e a indignação com a falta de uma afirmação peremptória: farei, irei. E, assim, concordaremos. Afinal, parece uma falta de atitude utilizar abusadamente o dito cujo – o gerúndio. Tomemos, portanto,  tenência!!

E eis que ao mudar de dial me deparei com o uso extravagante, provocativo, libidinoso, geracional  e desabusado do gerúndio. Adianto que os meus ouvidos resolveram evitar as FMs que reproduzem músicas classificadas como de bom gosto musical para as também consideradas de “gosto popular”. As que estão ad nauseam sendo reproduzidas como se fosse um processo osmótico: devem adentrar nos nossos ouvidos na intenção de se tornarem uma espécie de mantra. E assim repetiremos geração a geração. O que tanto num caso como no outro revelam gosto e valores de classes, de quem busca  status, e reproduz desigualdades ou fórmulas condensadas na mídia e nos jabás jornalísticos.

Nesse devaneio do uso do gerúndio e dos mantras midiáticos e jabazísticos,  os versos de um funk carioca zooaram lucidamente nos meus ouvidos. Ludmilla cantava os versos “Cheguei(cheguei), Cheguei chegando/ Bagunçando a zorra toda/E que se dane/Eu quero mais é que se exploda/ Porque ninguém vai estragar meu dia/ Avisa lá, pode falar”…  E os versos seguiam e reverberavam o ritmo dançante para todos que podem incomodá-la.  Das denominadas recalcadas, conspiradoras e invejosas, nenhuma parece escapar da sua  determinação. Afinal, Ludmilla  quer é causar e reafirmar o que diz ser seu dom.

O gerúndio aqui é mais que exacerbado (“chegando/bagunçando”). Torna-se uma afirmação que ela quer causar. E essa  criatura quer incomodar e também se afirmar. Seja onde for. O gerúndio muda de percurso. Em vez de ser uma forma nominal de algum verbo torna-se  uma demonstração de rebeldia e desejo. Uma reivindicação política.

Ao ver a imagética dessa música lembrei-me de um texto de Montaigne, filósofo do século XVI: Dos Canibais. Ali Montaigne chama a atenção para  a relativização de costumes considerados bárbaros. O que torna esse texto um primor.  Apresenta uma preocupação meticulosa, a partir de um informante que viveu na França Artártica (colônia francesa entre 1555-1560, na região do atual Rio de Janeiro), cuja finalidade mais filosófica que descritiva é compor uma tese: há povos que são bárbaros, pois são diferentes em relação aos nossos (ocidentais) em hábitos e costumes. Uma comparação entre práticas indígenas das Terras Brasilis com às dos franceses.

Daí, penso no uso político do gerúndio por Ludmilla bem como da indumentária por Montaigne.  Se Montaigne perguntava no final do texto por que “…diabo, essa gente [os indígenas] não usa calças!”?, eu me inquietei na minha vã antropologia –  por que diabos Ludmilla e suas seguidoras usam shortinhos elevados até às regadas da bunda? Que significados além do gerúndio haveriam?.

Confira abaixo o clipe da música mencionada no artigo:

 

 

Jocélio Teles dos Santos é doutor em antropologia, professor do Departamento de Antropologia da Ufba, autor de O dono da terraO poder da cultura e a cultura no poderEnsaios sobre raça, gênero e sexualidades no Brasil- séculos XVIII-XX, dentre outros.

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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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