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O mar é imenso, mas pode acabar

Maurício Rebouças

A água, o mar ou mesmo o oceano não são recursos inesgotáveis. Estão longe de ser. E ainda que tenhamos água por todos os lados, ela pode não estar apropriada para uso ou consumo e assim, é como se não existisse. Não obstante a isso, são as ameaças que a população de Ilha de Maré, nas proximidades de Salvador-BA, sofre por ver tanta água ao redor, mas que gradualmente vem desaparecendo, mesmo que o corpo líquido ainda permaneça por lá.

O desaparecimento das águas metaforicamente indica a escassez dos peixes, mariscos e principalmente a perda de segurança e qualidade que o povo da Ilha tinha em seus domínios marítimos. Um documentário chamado No Rio e no Mar, dirigido por Jan Willem Den Bok e Floor Koomen, lançado em 2016, revela essa ameaça citada pela população de Ilha de Maré contra a Petrobras e a indústria petrolífera que atua na região. Recomendo fortemente que assistam:

Quem vive do mangue sabe que a preservação ambiental é de suma importância para a qualidade do pescado e a saúde de quem pesca e de quem consome. Ostras, sururus, lambretas, chumbinhos, são todos filtradores e se alimentam do que há disponível na água, comumente matéria orgânica particulada. A poluição da água agrega compostos químicos altamente nocivos a esse material orgânico que facilmente acumula-se nos tecidos e estômago dos organismos filtradores e repassam pelas cadeias e teias alimentares. Esses poluentes podem ser metais pesados, por exemplo, que são bem comuns de serem encontrados no petróleo e em seus derivados.

Como relatado pela professora Neuza Miranda, da Universidade Federal da Bahia, a base da alimentação das crianças na Ilha de Maré é o pescado e devido à intoxicação por metais, foram encontrados dados bastante elevados de chumbo no cabelo e no sangue dessas crianças. A professora ainda alerta que o chumbo é considerado um metal neurotóxico, ou seja, afeta diretamente o sistema nervoso da pessoa intoxicada, comprometendo o desenvolvimento físico e cognitivo.

Outra localidade na abrangência da Baía de Todos os Santos e que também sofre por poluição é ambiental é Santo Amaro da Purificação, banhada pelo rio Subaé. Em 1993, foram abandonadas as instalações da Plumbum Mineração e Metalurgia Ltda., deixando no ambiente cerca de 500 mil toneladas de escória e 900 mil toneladas de concentrado de chumbo (MANZONI e MINAS, 2009). Em consequência da contaminação, muitas pessoas, dentre elas ex-funcionários da indústria, foram acometidas por doenças ligadas a intoxicação. Por essas e outras que o horror de um progresso vazio é denunciado pela sensibilidade de Caetano Veloso:

Purificar o Subaé/Mandar os malditos embora/Dona d’água doce quem é?

Dourada rainha senhora/Amparo do Sergimirim/Rosário dos filtros da aquária

Dos rios que deságuam em mim/Nascente primária/Os riscos que corre essa gente morena

O horror de um progresso vazio/Matando os mariscos e os peixes do rio/Enchendo o meu canto

De raiva e de pena

Além de existirem os impactos da instalação concreta de bases da indústria petroleira, onde estão registradas as marcas por onde o óleo passa, existem os acidentes de navios, que podem acarretar grande impacto ambiental por derramamento de óleo ou vazamento de gás, por exemplo. Fato como esse ocorreu em 2013, quando o navio Golden Miller carregado de gás propeno explodiu nas intermediações do Porto de Aratu.

Preservar os corpos hídricos é, antes de tudo, garantir a continuidade da vida. Não há vida sem água. As comunidades tradicionalmente pesqueiras e artesanais, talvez pela ligação mais estreita com o rio ou o mar, entendem da importância dessa preservação.

Nessas comunidades moduladas pelo vai e vem das marés, sabe-se desde pequeno o quão grande e abrangente significado a água pode ter, inclusive como elemento raiz das religiões de matrizes africana. E assim, desejo que as grandes mães das águas, doces e salgadas, transbordem sua proteção, mesmo com as ofensivas humanas para exaustão dos recursos naturais.

Maurício Rebouças é oceanógrafo e mestrando na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Paraíba.

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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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