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O que querem as mulheres das letras?

Rosângela Vieira Rocha 

A literatura brasileira não será mais a mesma depois do Encontro de João Pessoa, realizado pelo Mulherio das Letras 2017, de 12 a 15 de outubro, na capital paraibana. Foi a primeira reunião do Movimento que reúne mais de cinco mil mulheres – escritoras, editoras, revisoras, tradutoras, livreiras – que fazem parte da cadeia de produção e distribuição de livros no país.

Cerca de trezentas estiveram fisicamente presentes ao Encontro, embora muitas das participantes do grupo Mulherio das Letras 2017 do facebook tenham acompanhado os trabalhos e enviado contribuições. Uma grande festa literária feminina, que veio preencher uma necessidade, uma falta, uma lacuna, uma falha sentida pelas mulheres que trabalham com literatura.

O Movimento nasceu de maneira despretensiosa, a partir de uma conversa entre a escritora Maria Valéria Rezende, ganhadora de vários Jabutis, e outras veteranas nas letras, durante a realização da FLIP – Festa Literária de Paraty – em 2016. O que Maria Valéria e suas companheiras não sabiam é que as sementes lançadas ali iriam germinar tão rapidamente e de modo tão efetivo. A ideia foi se espalhando e ganhando adeptas em todo o país. Informalmente surgiram grupos regionais, como o Mulherio das Letras do DF, ao qual pertenço. Cada grupo fez reuniões preliminares, discutiram-se agendas que desencadearam uma série de novos debates cujas conclusões foram levadas ao Encontro Nacional. Além disso, antes mesmo da realização do evento, foram produzidas coletâneas de contos e de poesias de escritoras de todo o país.

As atividades principais realizaram-se de maneira horizontal – não houve palestras ou conferências e sim rodas de conversa – em que todas tiveram o mesmo direito de ocupar o microfone. Cada participante pôde escolher o seu tema predileto entre os seis apresentados pela equipe organizadora (composta de voluntárias) que, no decorrer das discussões preliminares e por meio de enquetes e pesquisas, reuniu em amplas categorias os assuntos considerados mais importantes.

Escolhi a roda sobre literatura e mercado, assunto de grande interesse para mim. Sabe-se, há muito, que não basta escrever e publicar livros, se estes não têm como chegar aos leitores. Foram duas tardes de discussões acaloradas, de desabafos, de compartilhamento de preocupações e angústias. Ao final, saímos enriquecidas com as trocas e com uma lista de tarefas que deverão ser cumpridas até o próximo encontro, previsto para novembro de 2018, que, a convite do secretário de Cultura do Guarujá, será realizado naquela cidade.

Paralelamente às rodas de conversa e lançamentos de livros, realizados no Espaço Cultural José Lins do Rego, outras atividades ocorreram em diversos pontos da cidade: saraus, performances, recitação de poemas, espetáculos teatrais. O Mulherio ocupou João Pessoa com entusiasmo e uma imensa alegria. Conheci e reconheci mulheres com as quais me relacionava nas redes sociais.

Nós, do Distrito Federal, distribuímos um documento às colegas explicitando posições e registrando nossas principais inquietudes. Resumidamente, ei-las:

    1. Há atualmente no Brasil uma grande produção literária de autoria feminina. Apesar de a maioria das obras ser escrita por homens, existe um grande número de obras escritas por mulheres, especialmente dos grandes centros do país.
    2. Geralmente estas últimas não possuem a mesma visibilidade das de autoria masculina e nem suas autoras recebem o mesmo tratamento por parte da mídia.
    3. A maioria das editoras – localizadas no eixo Rio-São Paulo – não dispensam às escritoras o mesmo tratamento dado aos autores do gênero masculino.
    4. Embora o número de escritoras seja relevante, a diferença de tratamento ocorre também na distribuição de prêmios literários, especialmente nos mais importantes. O número de mulheres que vencem os prêmios é muito inferior ao dos homens.
    5. É relativamente recente a presença de um número significativo de escritoras nas feiras e festas literárias, em que sempre predominaram os homens.

Nas conclusões apresentadas pelas rodas de conversa, percebeu-se uma convergência de reivindicações. O que todas nós queremos, em poucas palavras, é ocupar o nosso espaço na literatura brasileira, ter as mesmas oportunidades e receber o mesmo tratamento dado aos escritores.

Não se sabe quando isso será possível ou se algum dia ocorrerá de fato. O importante, no momento, é a constatação de que há uma tarefa enorme a ser realizada, que finalmente pusemos o dedo na ferida e que somente alguém como o carisma, o prestígio e a liderança da escritora Maria Valéria Rezende poderia mobilizar tantas mulheres em diferentes regiões do país.

Foi dada a largada. O que houve em João Pessoa não foi um congresso ou uma reunião, é bom que se diga. Representou, sim, o primeiro passo para fundar um Movimento que a meu ver não para mais, pois não pertence a nenhum grupo específico ou pessoa; é um Movimento de Mulheres das Letras, que trabalham com livros, que escrevem livros, que vendem livros, que fazem mediação de leitura, que traduzem, que revisam e distribuem e que dedicam grande parte de suas vidas à literatura.

No momento em que escrevo este texto, os grupos regionais já se movimentam para a realização das tarefas que deverão ser cumpridas até o Encontro do Guarujá. Há levantamentos e cruzamentos de dados, elaboração de listas e de manifestos. Há, sobretudo, uma energia muito positiva, um ânimo novo, uma certeza de que ninguém fará por nós o que temos de fazer. Rumo ao Guarujá, lá vamos nós!

Em O Indizível sentido do ser, Rosângela Vieira tece, com maestria, a poesia de uma história de amor . Foto: Divulgação

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, professora universitária e escritora. Publicou romances, novelas e contos: (Véspera de Lua, romance vencedor do Prêmio Nacional de Literatura UFMG – 1988 e Rio das Pedras, novela, ganhadora da Bolsa de Produção Literária da Secretaria de Cultura do DF – 2001), Fome de Rosas (romance) e Pupilas Ovais (contos), além de participar de várias antologias. É autora de obras infantojuvenis e colabora na revista literária eletrônica Germina.

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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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