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Os profetas da Chuva

Maurício Rebouças

A distribuição de chuvas no Nordeste do Brasil é dada de forma desigual. Mesmo que grande parte da região tenha clima semi-árido, é registrado considerável precipitação na costa leste, por exemplo. Esta, por sua vez, foi uma porção da região Nordeste procurada pelos retirantes do sertão no século XX, como retratado por Graciliano Ramos. E mesmo que a gestão de recursos hídricos seja um parafuso importante no entendimento dos problemas da seca, a previsão das chuvas condiciona todo o processo, desde a tomada de decisão ou o simples despertar da população rural para semear o solo.

Prever as chuvas com precisão e exatidão é algo complicado. Existem milhares de modelos de previsão utilizados em diferentes institutos e órgãos de meteorologia do país, que periodicamente emitem boletins a fim de informar a população de como deve ser o tempo nos próximos dias ou até meses. A heterogeneidade geomorfológica e os diferentes usos do solo, a origem convectiva da chuva, e os diversos sistemas que atuam em diferentes épocas do ano aumentam o grau de dificuldade em prever as chuvas no Nordeste.

O fato de a meteorologia ser uma ciência observacional, até pra quem tem formação acadêmica nesta área, aprimorou os olhares da população que vive da terra. Estes olhares foram aperfeiçoados com o tempo e o intuito maior era prever as chuvas, ao menos para seu pedaço de chão. Algumas pessoas adquiriram de forma empírica o conhecimento sobre o tempo e por técnicas simples, mas que atravessaram décadas de geração. Estão organizadas em grupos e são conhecidas como Profetas da Chuva no estado do Ceará. Se este tipo de previsão é certeiro ou não, são outros 500… Mas o fato extrapola as crendices populares.

Os profetas da chuva geralmente cresceram no sertão nordestino e procuraram desde cedo a se comunicarem com a natureza e utilizar o que se chama de “provas”, para então poder fazer as previsões. Estas provas ou evidências são das mais variadas: a cigarra quando canta, as formigas quando criam asas, o mandacaru quando fulora na seca (já dizia Luiz Gonzaga), o posicionamento da lua, a mudança na direção dos ventos… Enfim, diversas evidências, porém todas interpretadas com algum fundamento.

Um exemplo disso são as formigas que mudam o formigueiro para porções mais altas. Os profetas da chuva acreditam que elas fazem isso para prevenir possíveis inundações. Outro protagonista é o João-de-barro (Figura 1). Conhecidos como os “engenheiros do sertão” devido suas construções de ninhos faraônicos, o João-de-barro constrói suas casas com maior resistência em anos mais chuvosos. Há quem diga que se este pássaro fizer quatro andares significa que os quatro invernos sucessivos serão bons de chuva.

Ninhos de João-de-barro. Foto: Divulgação

Como não há uma única interpretação, os profetas da chuva se reúnem regularmente no Município de Quixadá-CE (Figura 2) para discutirem como que o próximo ano deve ser a respeito da quantidade de chuva. Essas reuniões têm grande repercussão local e muitos dos interessados, como os agricultores e comerciantes se fazem presentes com a confiança nestes profetas. Por exemplo, se o resultado da reunião apontar que o próximo ano será seco, os comerciantes locais não compram muitas sementes de milho ou feijão porque sabem que os agricultores diminuirão a semeadura.

Figura 2: Localização do município de Quixadá-CE. Fonte: Ceara MesoMicroMunicip.svg.

Por fim, é no mínimo curiosa a interseção entre ciência e cultura popular e como que todos, acadêmicos ou não, estão preocupados em entender como que a natureza funciona. Lembrando que conhecimento e sabedoria não são gerados unicamente pela academia e o conhecimento tradicional também é conhecimento. Como “para um bom entendedor, meia palavra basta”, observar o tempo é uma expertise.

Maurício Rebouças é oceanógrafo e mestrando na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Paraíba.

 

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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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