Colunistas,

Para qué quiero otros besos

Rosângela Vieira Rocha

Sábado atrasado fui almoçar com uma amiga em um restaurante muito simpático, que funciona em um sebo. Ela – que também gosta muito de ler – queria ir a um lugar animado, com muitos livros e leitores. Além do mais, a comida de lá é boa, o atendimento também. Pareceu-nos um lugar perfeito para aquele momento.

Fizemos a escolha dos pratos sem nenhuma pressa. O garçom, muito atencioso, ia e voltava, até que finalmente escolhi uma carne e Lili uma salada gigantesca.

O restaurante adotou uma maneira criativa de arranjar as mesas: sobre a toalha há discos de vinil – arranhados e meio amassados, imprestáveis para a venda – onde os pratos dos clientes são postos. Sempre peço para que retirem o disco, pois me dá gastura. Mas antes de devolvê-lo ao garçom vejo quem é cantor, como se fosse uma espécie de mensagem do biscoito chinês da sorte.

Naquela tarde o cantor era o Trini López, americano do Texas de origem mexicana, que fez sucesso nos anos sessenta. Cantava também em espanhol e arrebatava corações. Eu me lembro de sua lendária gravação de Perfídia, o velho bolero composto em 1937 por Alberto Dominguez. Uma amiga da mamãe – mulher excepcionalmente bonita, que frequentava a nossa casa – era fascinada por esse disco. Menina ainda, eu reparava como seus olhos brilhavam quando falava sobre Trini López.

Enquanto Lili e eu conversávamos, volta e meia eu me lembrava do disco. Sentia que a história não se esgotara aí – havia mais alguma coisa, outra pessoa que gostava de López. Mas quem seria?

E de repente, praticamente a vi diante de mim, baixinha e gorda, cabelos curtos de um branco prateado e imensos olhos azuis. A única pessoa nascida na Ilha de Marajó que conheci. Dona Alice era cartomante, ou havia se tornado cartomante, depois de adoecer e perder a mobilidade. Lia cartas de baralho (usava um pequeno, próprio das cartomantes “tradicionais”) para mim e algumas de minhas amigas. Sobre as outras não posso afirmar, mas o que menos me interessava nas visitas à dona Alice era a leitura das cartas. Ela sabia ouvir, como psicóloga nata que era, e me impressionavam seus conhecimentos sobre política, especialmente a local. Imagino que as informações iam até ela através da grande clientela, já que não saía nunca. Deitada na sua rede marajoara, pendurada em canto do modesto quarto de janelas verdes, dona Alice recebia autoridades, funcionários públicos, executivos, simples empregados.

Seu sorriso bondoso se abria diante de um pote de sorvete, embora ela não devesse tomá-lo, pois a obesidade agravava as suas terríveis crises de gota. (Eu a conheci servindo às visitas sorvete de cupuaçu artesanal, na sala, no tempo em que ainda podia andar). Não gostava de levar-lhe a iguaria, mas como me pedia, às vezes eu não resistia e fazia a sua vontade.

Certa vez ela me contou que tinha um sonho que nunca seria realizado. Imaginei que fosse a reconciliação com uma das filhas, que ela tentou incessantemente antes de morrer, sem êxito. A moça se envergonhava do ofício da mãe. Não era: meio envergonhada, tapando a boca, ela disse que queria ouvir Trini López cantando baixinho, nos seus ouvidos, nem que fosse um trechinho de Perfídia. Com sua voz fraca, de doente, entoou parte da canção, pelejando para marcar o ritmo com as mãos trêmulas.

Tenho muita saudade dela, da sua doçura, da sua sagacidade. Dependendo da sensibilidade e do desejo de quem a consultava, ali ocorria a psicanálise. Que, como me afirmou posteriormente um psicanalista, não requer necessariamente um consultório tradicional, com um profissional autorizado. “A psicanálise – disse ele – pode acontecer em qualquer lugar. Inclusive – e por que não? – durante uma leitura de cartas”.

Nossa conta foi trazida dentro de um livro, dessa vez do maravilhoso contista, dramaturgo e poeta uruguaio Horacio Quiroga, que suscita outras lembranças. Mas seria assunto para outra crônica, em outro dia, em outro momento. Por enquanto, fiquemos com o poder de evocação de um cantor sobre o qual praticamente não se ouve falar mais. Mas que marcou forte presença, morando tão longe, em pelo menos duas mulheres que fizeram parte da minha vida de menina e de adulta. Viva Trini López!

Confira aqui Perfidia na voz de Trini López.

 

 

 

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, advogada, professora universitária e escritora. Publicou romances, novelas e contos: (Véspera de Lua, romance vencedor do Prêmio Nacional de Literatura UFMG – 1988 e Rio das Pedras, novela, ganhadora da Bolsa de Produção Literária da Secretaria de Cultura do DF – 2001), Fome de Rosas (romance) e Pupilas Ovais (contos), além de participar de várias antologias. É autora de obras infantojuvenis e colabora na revista literária eletrônica Germina.

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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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