Agua de Chocalho,

Paraíso do Tuiuti atualiza discussão sobre herança da escravidão e política em meio ao samba

Cleidiana Ramos

Fotos: Divulgação

Assisti pela TV o desfile da Paraíso do Tuiuti,  escola de samba do Rio de Janeiro, na madrugada de hoje, segunda de Carnaval, 12, equilibrando os sentimentos de curiosidade e temor. Com um tema difícil, “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?” a partir do gancho dos 130 anos de assinatura da Lei Áurea que serão completados em 13 de maio deste ano fiquei na expectativa do prisma que seria abordado pela escola e temorosa dos clichês que geralmente cercam o tratamento de algo tão doloroso quanto a escravidão especialmente nos produtos feitos para a televisão brasileira. Mas,  ousadamente, a Paraíso do Tuiuti conseguiu ser provocativa, incisiva e ainda bem humorada quando trouxe para o seu desfile a gradual perda dos direitos trabalhistas.

A comissão de frente já foi um recado e tanto: negros escravizados encontraram sua liberdade a partir da ancestralidade do Preto Velho. Um grupo de acorrentados se transformavam nesta entidade para curar a dor de outros. O antigo feitor ajoelhava arrependido e redimido diante da força da espiritualidade.E foi o Preto Velho, este ícone da umbanda, uma das religiões que bebem no legado afro-brasileiro, que quebrou os grilhões do cativeiro na encenação do começo do desfile.

Momento em que os Pretos Velhos da Comissão de Frente se preparam para libertar o cativo

Em seguida, veio a apresentação  de como a escravidão ocorreu entre vários povos para enfim fazer o link entre a invasão de países africanos em busca de suas riquezas e consequentemente a sanha européia em estender esta exploração para o comércio de pessoas. Esteve desfilando na avenida uma leitura da escravidão mais condizente com abordagens da historiografia contemporânea, mas que não conseguiram encontrar eco na cobertura da emissora que detém os direitos de transmissão. Jornalistas da equipe e convidados silenciaram e quando fizeram comentários lá vieram os clichês rasteiros como “negros escravizaram negros”. Isso quando a escola tinha acabado de mostrar alas que indicavam uma chegada européia desestabilizando as sociabilidades locais e as confusões que se formaram inclusive com o indicativo de reis e rainhas escravizados lembrando que a tragédia se abateu sobre todas e todos e não por decisão de “africanos escravizar africanos”. Por que esse pessoal não se prepara?

De forma cadenciada lá estava as “escravidões” do nosso mundo cheio de tecnologia: a usada pelos negócios do mercado da moda; a persistente no meio rural e a urbana com trabalhadores representados como centopeias, ou seja, submetidos a sobrecargas desumanas sustentados por uma carteira de trabalho, que ainda tentava garantir algum tipo de limite, mas  que já apareceu desgastada na última e mais contundente ala: a do carro que mostrava os responsáveis por este contexto.

O Vampiro com a faixa presidencial

Em destaque no carro uma caricatura de vampiro decrépito, que trazia a faixa presidencial ao peito (muito parecido com o atual ocupante da presidência da República, óbvio), cercado por fantasiados de manifestantes pró-impeachment da presidenta Dilma Rousseff  com suas tristes camisas da CBF – a entidade responsável pelo futebol nacional envolvida em escabrosos casos de corrupção. Lá estavam os participantes dos protestos com suas patéticas panelas e que uma ala à frente do carro mostrava montados nos patos símbolo de uma entidade que mais batalhou pela famigerada reforma trabalhista. Mas o melhor estava no alto do equipamento :mãos que manipulam tudo abrindo espaço para diversas leituras: mídia corporativa, mercado ou tudo isso  misturado.

Uma lembrança de protestos manipulados por mãos “invisíveis”

Embalando toda esta riqueza discursiva um samba poderoso em letra e melodia:

Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?

G.R.E.S Paraíso do Tuiuti

 

Irmão de olho claro ou da Guiné/Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado

Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor/Tenho sangue avermelhado

O mesmo que escorre da ferida/Mostra que a vida se lamenta por nós dois

Mas falta em seu peito um coração/Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz

 

Eu fui mandiga, cambinda, haussá/Fui um Rei Egbá preso na corrente

Sofri nos braços de um capataz/Morri nos canaviais onde se plantava gente

 

Ê Calunga, ê! Ê Calunga!/Preto velho me contou, preto velho me contou

Onde mora a senhora liberdade/Não tem ferro nem feitor

 

Amparo do Rosário ao negro benedito/Um grito feito pele do tambor

Deu no noticiário, com lágrimas escrito/Um rito, uma luta, um homem de cor

 

E assim quando a lei foi assinada/Uma lua atordoada assistiu fogos no céu

Áurea feito o ouro da bandeira/Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

Meu Deus! Meu Deus!/Seu eu chorar não leve a mal

Pela luz do candeeiro/Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor/Meu Paraíso é meu bastião

Meu Tuiuti o quilombo da favela/É sentinela da libertação

Repercussão

A repercussão do desfile da Paraíso do Tuiuti  foi acima do esperado. Até há algumas horas  era um dos assuntos mais comentados nos trend topics do Twitter mundial e domina o Facebook. Vale lembrar que a Estação Primeira de Mangueira também fez um desfile com duras críticas ao prefeito do Rio de Janeiro, o bispo neopentecostal Marcelo Crivella que entrou em rota de colizão com os organizadores do Carnaval na cidade.  Este é apenas um indicativo do que se sabe há muito principalmente na antropologia: Carnaval e outras festas são coisas muito sérias. ´

Lúdicos, nem por isto estes espaços são “fugas” da realidade como uma parcela significativa de pessoas pensa. Pelo contrário: tensões, disputas, as mazelas do dia- a- dia e por isso o protesto estão sempre cercando estes campos festivos  e, quando não explícito, em estado latente. Fazia tempo que faltava esta faceta mais nítida nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e que no Carnaval soteropolitano está sempre presente com o Ilê Aiyê, Olodum e outros afro, além da irreverência da Mudança do Garcia. Que seja bem vinda esta mistura de festa, política e humor. Se não vier o título oficial (acho extremamente difícil que premiem tanta ousadia e coragem), a Tuíti já ganhou corações por todo o Brasil.

Para quem não viu, um trecho do desfile:

 

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Escritor

Nasci em Cachoeira no recôncavo; cresci em Iaçu na Chapada Diamantina e vivo em Salvador. Transito, portanto, em três das áreas mais charmosas da Bahia. Sou jornalista, doutora em antropologia e mestra em estudos étnicos e africanos

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