Agua de Chocalho,

Pesquisa revela bastidores da repressão policial contra candomblés

O doutor em antropologia Vilson Caetano Júnior, apresenta, na próxima quinta-feira, 8, a partir das 14h30, no Arquivo Público da Bahia, Baixa de Quintas, o resultado parcial da sua pesquisa nos arquivos da Delegacia de Jogos e Costumes.

Intitulada Candomblé e Polícia nos Arquivos da Delegacia de Jogos e Costumes, a palestra vai mostrar os meandros da repressão e controle sobre as religiões afro-brasileiras, realizado pelo Estado até bem recentemente, pois o decreto que tirou da polícia o direito de decidir sobre as festas públicas só foi assinado pelo governador Roberto Santos em 1976.

Professor da Universidade Federal da Bahia, Vilson Caetano é também babalorixá e o  líder religioso do Ilê Oba L´okê, localizado em Lauro de Freitas.  Estamos aqui, portanto, diante de uma pesquisa em que o objeto dialoga de forma muito forte com a sensibilidade do pesquisador, mas nem por isso se perde a mão na metodologia.

Conheci Vilson Caetano via o jornalismo e, desde então, tenho uma mistura de admiração e carinho por ele.  Trata-se daqueles pesquisadores que vibram com o trabalho que assumem e só sossegam quando cada pecinha está deixando o quadro nítido não apenas para os seus pares, mas também para um público que não está tão acostumado com os meandros acadêmicos. Esses para mim elaboram trabalhos ainda mais ricos porque conseguem ir além de fronteiras.

Vilson Caetano fez extensa pesquisa em registros policiais. Foto: Arquivo Pessoal

Documentação

Nesse caso específico, Vilson Caetano se ocupou de arquivos que foram disponibilizados para consulta pública em 2016. Com a colaboração voluntária de dois estudantes do curso de Gastronomia da Ufba, ele analisou os livros de registro e ocorrência e os de registro de queixas da Delegacia de Jogos e Costumes de 1938 a 1976.

“Foram abertos 102 livros totalizando 40.800 páginas. Os Livros de Queixas estão menos organizados  e possuem interstícios de até cinco anos. Foram abertos 39 livros cuja maioria possui 100 páginas com verso. Aproximadamente de janeiro a maio de 2017 foram consultadas 48.600 páginas”, conta o pesquisador.

De acordo com Vilson Caetano, as notificações e queixas giravam, em sua maioria, em torno de barulho provocado por atabaques, notícias de pessoas depositando “bozós” nas ruas, pessoas se queixando de feitiços largados na porta de casa e recolhimento de crianças para obrigação religiosa.

“Bem longe se passava as narrativas de invasão, destruição e apreensão de objetos sagrados do candomblé, que tanto se tem notícia e permanecem vivas na memória das principais lideranças. Sobre isso, as fontes consultadas silenciavam e distorciam sistematicamente a realidade social”, completa o doutor em antropologia.

Além dos registros da polícia, o pesquisador também consultou o Diário Clínico dos Médicos do Hospital Juliano Moreira, correspondências recebidas e expedidas do acervo da Secretaria de Segurança Pública (SSP), mapas de identificação criminal, portarias e decretos , dentre outros documentos. A palestra dessa quinta, para quem se interessa em saber mais sobre esse período de repressão e suas consequências é imperdível.

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Escritor

Nasci em Cachoeira no recôncavo; cresci em Iaçu na Chapada Diamantina e há 24 anos vivo em Salvador. Transito, portanto, em três das áreas mais charmosas da Bahia. Sou jornalista, doutora em antropologia e mestra em estudos étnicos e africanos.

2 Comentários

Pompeia Alves

Ótima pesquisa… estou no último semestre em jornalismo, meu TCC será sobre Religião de matriz africana- candomblé.. e farei uma análise de como o jornal A Tarde retratava o candomblé em um 1942 na época da proibição e em 2015.
Quero muito falar com propriedade do assunto. Belo texto. Existe algum canal que eu possa acompanhar vocês?
Palestras e seminários aqui em Salvador ?

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Cleidiana Ramos

Oi Pompeia. Os nossos canais são este site e nossa fanpage. Sempre trazemos notícias também sobre pesquisas nesta linha. Abraços.

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