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A política, o poder e o terreiro: origem secular

Especial

 

Jocélio Teles dos Santos 

Fotos: Divulgação

 

Se relacionarmos o conceito de política à existência de hierarquias, e também de poder, reconheceremos que a política nos(dos)  candomblés se estabeleceu desde o século XIX. E que pode ser datado como a materialização simbólico-religiosa e organizacional dos terreiros soteropolitanos. E uma das suas características foi a centralização das lideranças denominadas pai ou mãe-de-santo através de uma hierarquia bastante rígida. Uma autoridade exercida sobre os membros do terreiro de qualquer função hierárquica. E dois termos aqui são secularmente reveladores do seu poder: obediência e respeito.

 

O que pode ser evidenciado nessas lideranças era a capacidade de práticas relacionadas ao exercício e controle do poder. Um poder molecular, diria Michel Foucault. Poder como produtor de individualidade, sendo o indivíduo uma produção do poder e do saber. Não é à toa que um discurso que se encontra secularmente nos terreiros é o de que o pai ou mãe de santo detém um saber adquirido de todo o processo de inserção, iniciação, herança e liderança, reproduzido em práticas oriundas de matrizes africanas.

Mas, se há poder, também há delegações em práticas de poder. Nos anos sessenta do século XIX uma função executiva importante nos terreiros era destaque em um jornal soteropolitano (O Alabama): a de ogã.  E nos anos setenta aparecerá uma definição mais nítida deste cargo honorífico masculino. Os ogãs ocupavam um papel fundamental na defesa perante a sociedade escravista. Como observaria o romancista Xavier Marques (O feiticeiro), eram “os protetores influentes e beneméritos” dos terreiros. Nina Rodrigues, médico e cientista social, um contemporâneo do romancista, dizia que os ogãs eram “os responsáveis e protetores do candomblé”. E, provavelmente, assim se sentia, já que era ogã do terreiro do Gantois. Seu discípulo, Arthur Ramos afirmaria nas décadas seguintes: “o ogan é quase sempre um branco, senhor, a quem os negros respeitam, enxergando nele um protetor do terreiro”. E o médico cientista sabia muito bem do que falava, afinal tornara-se também  ogã do terreiro do Gantois para “fins de pesquisa científica”.

A manipulação dos búzios como oráculo é um dos indicativos de poder no candomblé.

Além desses cientistas, o escritor João da Silva Campos registrou a presença de dois generais do exército entre os ogãs do terreiro do Gantois, nas primeiras décadas do século XX.

Ogã como  um cargo honorífico direcionado a uma mediação com o que se convencionou chamar de sociedade mais ampla. Destaco esta observação no âmbito da política do terreiro. Trata-se de um cargo institucionalizado e inscrito no sistema simbólico afro-religioso, mas com alcance além do sagrado. A sua mediação é com o mundo social externo aos espaços sagrados dos terreiros.

O destaque dado aos ogãs estava também circunscrito à política, ao interesse eleitoral, e a uma influência que lideranças dos terreiros proporcionariam aos políticos. Um jogo de interesses e estratégias. De um lado, a busca de proteção aos espaços afro-religiosos bem como às lideranças, aos adeptos e freqüentadores. Do outro, a crença de  “pessoas influentes” nas práticas religiosas que ali eram exercidas. A chamada ‘crença no feitiço’. Uma ambigüidade que desde então marcava as relações entre os terreiros de candomblé e as elites baianas.

Assim, verifica-se que a política institucionalizada não estava ao largo, distante, do universo dos terreiros de candomblé. As informações de Nina Rodrigues apontam para a política presente nessas relações: “a mola é sempre o interesse eleitoral, que neste país faz de tudo catavento”. E assim as lideranças de terreiros buscavam apoio em figuras importantes da macro-política: “Sei de um senador e chefe político local que se tem constituído protetor-chefe dos ogãs e pais de terreiro”. Explicitamente, uma relação de troca se estabelecia entre sujeitos desiguais. Ou se preferirem sujeitos da micro-política e da macro-política. E para esses últimos havia “interesses materiais e diretos” que se amparavam na crença, vista como supersticiosa. Um primor de revelação sobre a sociedade brasileira. E que atravessaria o século XX e adentraria a pleno vapor no Estado Novo, no período da ditadura militar, na redemocratização, e no século XXI.

Jocélio Teles dos Santos é doutor em antropologia, professor do Departamento de Antropologia da Ufba, autor de O dono da terraO poder da cultura e a cultura no poderEnsaios sobre raça, gênero e sexualidades no Brasil- séculos XVIII-XX, dentre outros.

 

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Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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