Colunistas,

Por um feminismo negro mais presente

Nádia Conceição

Algumas pessoas acham estranho ou até radical quando nos referimos ao feminismo negro, mas este é o termo mais adequado para falar das lutas das mulheres negras e de suas trajetórias, moldadas a partir da escravização da população negra e que ainda gera consequências desastrosas à descendência. O feminismo ainda é, no nosso país, um movimento que sofre diversas repulsas por conta da falta de conhecimento da maioria das pessoas.

Nos últimos anos, a democratização da informação, proporcionada pela ampliação do acesso à internet, permitiu uma crescente aparição do movimento feminista e, mais importante, da aparição de pensadoras negras que muito têm contribuído para que o feminismo negro tenha seu devido espaço.

Mulheres negras como Sueli Carneiro, Luiza Barrios, Vilma Reis, Ângela Figueiredo, Rosangela Araujo e tantas outras demonstraram e demonstram, através da persistência e resistência, que o seu lugar é para além da cozinha das casas grandes e das classes médias medíocres do nosso país.

A leitura dos trabalhos dessas mulheres deveria ser obrigatória nas escolas das sociedades cujas bases foram alicerçadas na vergonha de um sistema escravista e excludente, que ainda gera desastrosas consequências, tais como o analfabetismo, subempregos, falta de moradia digna e o desestímulo à carreira acadêmica – quando isso ocorre somos, a todo tempo, lembradas de que aquele não é o lugar de mulheres negras.

A presença do pensamento feminista negro na nossa sociedade deve ser mais forte, pois a escalada do empoderamento feminino brasileiro perpassa, sem dúvida, pela disseminação do pensamento dessas mulheres e por um fator que é notório: a maioria de nossa população é negra e de mulheres, então, como não reivindicar esse conhecimento?

Essa presença é o que sustentará a formação de uma intelectualidade feminina negra nos espaços de produção de conhecimento, fundamental para mostrarmos o outro lado da nossa história, bem como a desmistificação de que nós, negras, não temos capital intelectual, que somos incapazes de pensar e estar em qualquer lugar que queiramos estar, diferente de servir mesas ou limpar chão, mas que podemos isso – se for o desejo – e muito mais.

Persistência

Desde que iniciei meus estudos dentro da temática de gênero passei a me questionar o motivo de não ter tido contato antes com o feminismo negro no ensino básico, nem na minha formação na graduação, já que sou mulher e negra.

Hoje em dia a resposta para este questionamento começa a vir à tona quando lembro da minha passagem pela graduação em jornalismo. Não existia, nem existe até os dias de hoje, na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, uma professora efetiva negra. Refiro-me, portanto, à falta de representatividade negra dentro dos espaços acadêmicos, públicos.

É bem verdade que a falta de representação não foi, a priori, um problema, pois pouco ou nada se falava de tal coisa. A grande problematização se dava pela implementação do sistema de cotas nesta universidade e, a partir daí, atentei-me pela não representatividade da mulher negra nesses espaços após iniciar participação em um programa de permanência para estudantes oriundos do sistema de cotas: o Conexões de Saberes, onde tive uma iniciação a esta temática e fui fisgada após uma formação com as mestras Luiza Bairros e Maria Nazaré Lima.

A partir daí sempre este tema foi me trazendo para meu lugar enquanto mulher e negra e a conexão destes dois elementos me fazem quem eu sou, mas, além disso, me faz reconhecer a importância de reivindicarmos a inserção dos temas feminismo e feminismo negro para nossas meninas e meninos, pois o conhecimento os ajudará a serem adultos livres de violências, de racismo e de qualquer espécie de preconceito. Mas até hoje esta discussão é inexistente na formação escolar nacional em quase todas as esferas, pois ainda somos regidos por uma estrutura conservadora e patriarcal.

Para que nossas crianças sejam adultos plenos em cidadania  não precisamos descobrir nada novo, basta reconhecer os esforços das nossas mulheres negras, que todos os dias vencem micro guerras cotidianas e estabelecer metas de melhoria da qualidade de vidas dessas mulheres.

O feminismo negro, exercido por estas mulheres é genuinamente brasileiro e, como afirmou Ângela Davis em conferência realizada em Salvador no último dia 25 de julho, nada deve a aos feminismos realizados em outros países como nos EUA. Elas, é bom reforçar, não estão lutando contra homens ou contra brancos, mas contra uma estrutura racista, classista e sexista que ainda teima em moldar o comportamento social brasileiro.

A luta é por uma sociedade onde as mulheres negras sejam muito mais que uma pauta em eventos de feministas, onde a hipocrisia não impere, pois pode ser fácil ser feminista quando existe uma mulher negra em casa para cuidar dos filhos, engomar, lavar, cozinhar, passar. Ainda, infelizmente, temos uma classe média com o pensamento colonizado, que cultiva o quartinho de empregada, que faz questão de marcar as diferenças raciais e sociais e que mantém ainda de pé um estado classista, racista e extremamente sexista.

Por isso reforço o meu desejo de que o feminismo negro alcance presença na nossa sociedade como reforço na mudança de atitude. É preciso mudar o panorama,  onde a mulher negra ainda é vista como “ para pegar” e não para namorar e casar; onde somos mais requisitadas para trabalhos manuais e menos intelectuais; onde nossa aparência é motivo de exclusão no mercado de trabalho e onde somos as mais vulneráveis, mais solitárias e maiores vítimas da violência sexual e doméstica. Por tudo isso que levanto aqui a bandeira de um feminismo negro mais presente em nosso Brasil. Precisamos descolonizar o pensamento para melhorar e humanizar a sociedade.

Nádia Conceição é jornalista, mestre em Cultura e Sociedade com ênfase em Cultura, Comunicação, Saúde e Meio ambiente; especialista em Comunicação Estratégia e Gestão de Marcas, ambas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade também pela UFBA.

1+
0sem comentários

Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

Deixe uma resposta

Siga @flordedende