Agua de Chocalho,

Povo dá o tom sobre santos juninos

 

Na iconografia clássica, São João aparece como um pré-adolescente segurando um carneirinho. É uma releitura bem mais leve da sua condição de anunciador de Jesus como o salvador ao chamá-lo “Cordeiro de Deus”.

As transformações que a devoção popular, especialmente no âmbito do catolicismo,  promove nas biografias dos santos são fascinantes. Às vezes elas são tão poderosas, que obrigam a ortodoxia a, no mínimo, manter a tolerância. Afinal, o povo transforma o que às vezes se torna muito duro para suportar. Daí que as licenças poéticas em relação aos santos de junho se tornam interessantes.

O São João festejado com fogueira, muita comida, bebida e megaeventos (que produzem boas polêmicas para as redes sociais como a recente peleja do sertanejo universitário X forrozeiros pop), em nada lembra o João dos Evangelhos. Aquele menininho simpático, de sorriso meio enigmático como o da Monalisa passa bem longe do perfil severo do João adulto apresentado nos evangelhos.

Iconografia de São João que foge ao perfil de homem sisudo. Foto: Reprodução.

Sobre ele, São Mateus escreveu:

“Naqueles dias apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia. “Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo”. (…). João usava roupa feita de pelos de camelo, e cinto de couro na cintura; comia gafanhotos e mel silvestre”.

(Evangelho segundo São Mateus, capítulo 3, versículo 1-2 e versículo 4).

Além desse vestuário e dietas inusitados, João era muito duro em seus discursos:

“Raça de cobras venenosas, quem lhes ensinou a fugir da ira que está para chegar?”

“O machado já está posto na raiz das árvores. E toda árvore que não der bom fruto, será cortada e jogada no fogo”.

Essas duas sentenças são de suas pregações, segundo o mesmo São Mateus no prosseguimento da sua versão sobre a vida de Jesus. João era, portanto, um dos muitos profetas tidos como o Messias escolhido, mas, ele logo tomou providências para negar essa possibilidade: anunciou em alto e bom som, que a figura especial era Jesus, quando este o procurou para ser batizado. Aliás é por isso que é chamado João Batista.

Acusador

O João dos evangelhos é sisudo, implacável e acusador feroz de quem andava aprontando, principalmente se detinha poder. Por conta disso acabou decapitado. Sua cabeça foi oferecida em uma bandeja como atendimento ao pedido da enteada do rei Herodes, que fascinou os convidados de um jantar no palácio real.

O desfecho trágico do profeta que arrastava multidões, mesmo vestido de couro, comendo gafanhotos e predizendo castigos terríveis para os impenitentes, foi consequência da sua denúncia sobre a relação de Herodes com sua cunhada, o que era um escândalo para os rígidos costumes  judaicos.  Como, esse profeta tão rigoroso acabou celebrado com uma festa cheia de alegria?

Uma imagem de João Batista mais condizente com a versão dos evangelhos. Foto: Reprodução.

Uma das explicações está relacionada à apropriação católica-cristã de ritos celebrados nos campos devido à passagem de estações. Nos países europeus, o verão é em junho. É tempo de colher o que se preparou no outono.

Mesmo no nordeste brasileiro, onde a festa tem mais força, o tempo de calor já passou, as temperaturas ficam mais baixas, mas os grãos plantados em março, com a chuva de São José, finalmente estão prontos para ser consumidos. Não é à toa que o milho é o rei da mesa nesse ciclo.

Dia 29: homenagem dupla

Depois de São João é a hora da festa do patrono dos pescadores e dos viúvos: São Pedro, celebrado no dia 29 de junho. Mas aqui repousa uma curiosidade. A data tem outro homenageado. Trata-se de São Paulo que, para a Igreja Católica, está no mesmo patamar de importância que Pedro, considerado seu primeiro papa.

São Paulo não fez parte do círculo de apóstolos de Jesus. Aliás tinha horror pelos seus seguidores. Até que uma visão do próprio Jesus quando ele se dirigia para Damasco mudou sua vida e deu uma guinada na fé que nascia.  São Paulo virou um pregador dos ensinamentos de Jesus no mundo greco-romano. Talvez, sem ele, o cristianismo não se expandiria para além da Judeia.

São Pedro ao lado de São Paulo. Foto: Reprodução.

Só uma medida da importância de São Paulo: dos 26 livros do Novo Testamento, ele escreveu 14. Portanto, ele praticamente inseriu as bases para se elaborar a doutrina da nova religião.

Mas para o povo quem importa mesmo é São Pedro, o mais humano dos apóstolos. Pedro foi capaz de fazer deduções que mereceram o elogio de Jesus, como a definição precisa de que ele era o Filho de Deus. Esteve em momentos importantes. Um deles foi no Monte Tabor, quando a natureza divina de Jesus se manifestou. Além dele, estavam lá apenas João e Tiago. Jesus deu a Pedro as chaves de ligação entre o céu e a terra; o chamou de Simão- Pedra, a rocha para edificar sua igreja.

Mas foi Pedro quem vacilou quando Jesus disse que ele poderia andar sobre as águas. Duvidou do mestre e quase se afoga; não entendeu o gesto de Jesus quando pouco antes da última ceia ele lavou os pés de cada um dos apóstolos; se negou a acreditar que Jesus seria traído por um dos seus. Foi advertido que faria algo parecido ao negá-lo, o que acabou acontecendo para o seu desespero.

Entretanto, Pedro sempre teve coragem de recomeçar após um erro. Fica patente que amadureceu. O Pedro que aparece nos Atos dos Apóstolos virou um líder a ponto de ter palavra decisiva sobre o fim dos limites entre judeus e não-judeus que dividiam a fé em Jesus. Essa questão foi crucial para sedimentar de vez o que era um movimento como nova força religiosa. Talvez por isso tenha se tornado tão querido a ponto de invisibilizar o douto Paulo.

O santo do povo

Primeiro dos santos comemorados em junho- sua festa foi no último dia 13-, Santo Antônio tinha tanto conhecimento de doutrina que é um doutor da igreja.  Era também um exímio pregador. Natural de Lisboa, foi acolhido e se tornou extremamente popular com fama de casamenteiro e de encontrar coisas perdidas.

Santo Antônio tem fama de casamenteiro.Foto: Reprodução.

No encontro entre candomblé e catolicismo, na Bahia, passou a ter uma associação com Ogum, pois teve patente em quartéis como soldado.  Em alguns casos chegou a ganhar soldo. Além disso, é objeto das liberdades que não se toma em relação a outros santos. Santo Antônio é colocado de cabeça para baixo, na chuva e até se rouba o Menino Jesus que ele leva nos braços.

Para o povo, portanto, na homenagem a cada um dos santos o que vale não são apenas as virtudes que os tornam diferenciados, mas aquilo que os aproxima das mulheres e homens comuns. Isso, talvez, é a razão da devoção cercada de alegria que recebem.

1+
0sem comentários

Escritor

Nasci em Cachoeira no recôncavo; cresci em Iaçu na Chapada Diamantina e há 24 anos vivo em Salvador. Transito, portanto, em três das áreas mais charmosas da Bahia. Sou jornalista, doutora em antropologia e mestra em estudos étnicos e africanos.

Deixe uma resposta

Siga @flordedende