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Pra início de conversa, o que é ser índio?

 Kelly Oliveira

Fiquei matutando por aqui como apresentar um primeiro artigo sobre a presença de povos indígenas na sociedade brasileira. Muitos são os artigos sobre penas e pinturas, rituais diferentes e costumes exóticos. E são notícias que atiçam a nossa curiosidade e nos seduzem pela beleza ou estranheza do que apresentam. Afinal, tem cada pintura e cocar lindo nesse Brasil. E eu concordo! No entanto, pra início de conversa, vou colocar um pouco das cores de lado e entrar no básico: afinal, o que é ser índio?

Os indígenas são vistos, pela grande maioria dos brasileiros, na categoria ou de seres do passado (como vemos em malogrados livros de história) ou isolados de nossa sociedade, por uma cultura que os coloca no meio da floresta, parados no tempo, distantes de quaisquer questões que envolvem a sociedade nacional. Índio morando na cidade? Frequentando universidade? Com carro, celular, tablet e Whatsapp? A resposta é esmagadora: não são mais índios. Como se os não-índios estivessem eles próprios sujeitos também a viverem como há 500 anos, onde portugueses encaravam banho com medo e o tomavam, em média, uma vez ao ano. E as roupas? Neste calorão, haja ar-condicionado para aguentar aqueles vestidos!

Parece um choque, mas o que define um indígena não é um modo de vida exótico. Possuir bens materiais e boa parte da vida doméstica semelhante à de outros brasileiros não lhes tira a identidade étnica específica. É impressionante, mas eles não vivem pintados da hora que acordam à que dormem e não têm o ímpeto selvagem de atacar com flechas e lanças quem se aproximar deles. Tampouco se assemelham a um dócil selvagem que é tratado como uma criança. Sempre digo aos alunos que não existe nem índio mau, nem índio bom. Existe gente, e é ai que mora a dificuldade – compreendê-los como pessoas, e não seres imaginários.

Pesquisadora enfatiza que é necessário compreender os povos indígenas em sua pluralidade. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Diversidade

Pra início de conversa, então, podemos perguntar: o que os define como índios? Grosso modo, responderei a essa pergunta com a definição de um antropólogo chamado Fredrik Barth, que define “grupos étnicos”. Ele os aponta como aqueles que são reconhecidos como uma coletividade diferenciada, tanto individualmente quanto pelo grupo. Eles também se reconhecem através de uma origem comum e mantêm sinais diacríticos que os distinguem de outros grupos. Esses sinais, no entanto, variam, de acordo com a coletividade e, mais importante que a definição de quais são estes sinais, é o fato de que eles existem.

O papo antropológico é meio chato, mas é importante para o diálogo inicial ao falarmos sobre povos indígenas – revisando então, temos que eles são de determinado grupo porque se reconhecem como tal, e são reconhecidos pelo grupo também. Possuem uma origem comum e semelhanças em sua cultura. Dizer o que os distingue, no entanto, varia. Não dá pra dizer que só é índio quem tem uma língua diferenciada, ou quem anda sem roupas pela mata, ou quem se pinta. Ser índio é muito mais do que nossos estereótipos nos dizem.

Aliás, até mesmo essa definição de índio, como uma coisa genérica, não reflete a realidade. “Índio”, desde sua origem, é uma categoria política. Foram os colonizadores que chegaram aqui e, sem noção de quem estavam vendo, definiram que todo mundo que cá estava pertencia a um só grupo. Esse foi o termo que usaram para descrever povos de nomes e origens diversas, com línguas diferentes, costumes específicos, mitologias riquíssimas e relações próprias entre eles, que foram simplesmente soterradas pela sapiência européia de atirar primeiro e perguntar depois.

“Mas índio não tem que ter cara de índio?”, “E eles não tinham uma língua própria?”. A história nos ajuda a responder a essas questões. Falando específicamente da região Nordeste, a colonização chegou há muito tempo. Foram diversos os impactos desta nos nativos que aqui estavam. Escravizados e posteriormente realocados para coletividades submetidas à Igreja Católica, esses povos foram obrigados a viver em aldeamentos que misturavam, propositadamente, povos de origem e língua diferentes, que tinham que aprender uma língua geral para se comunicarem, enquanto as suas de origem estavam proibidas. Os casamentos interraciais também eram incentivados e as casas deixavam de ser coletivas para entrarem na lógica das unidades familiares.

Nunca foi fácil ser nativo. A partir do momento em que foram categorizados como índios, esses homens e mulheres passaram a viver a pressão de deixarem sua cultura em segundo plano e reproduzirem o que os não-índios definiam como o correto. A resistência era doméstica. Em casa, na calada da noite, alguns rituais continuaram a ser realizados, algumas palavras da língua eram repetidas. Histórias eram repetidas e repetidas. Uma estratégia subreptícia que lhes garantiu a possibilidade de, mesmo diante de tantas violências, passarem a seus filhos quem eram, e da origem comum que os diferenciava.

Contar essa história nos ajuda a entender que esses indígenas passaram por um processo de violências que lhes alterou, de forma brutal, muito – a língua, as relações sociais, os costumes, as terras. Mas que não lhes tirou a noção de identidade diferenciada, que foi mantida com uma luta por vezes explícita, por vezes velada, mas que se prolongou.

Hoje, diante do momento político em que vivemos, esses grupos vão se renovando na mobilização pelo direito de terem uma identidade própria, e de serem respeitados por ela. Talvez pelo acumulado de luta esses nativos se apresentam na atualidade como um exemplo de movimento social plural, que se reconhece através de tantas diferenças que possuem, e luta para garantir que o termo que foi usado no início como significante de submissão hoje sirva como elo do ligação. “Ser índio”, como categoria política, nos serve a todos como exemplo de resistência e luta. Um papo que vai longe, e que vamos aprofundando nas próximas conversas da Flor de Dendê!

Kelly Oliveira é antropóloga,  jornalista e professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Trabalha com etnologia indígena, mobilizações sociais e antropologia visual.

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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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