Agua de Chocalho, Cultura,

Preciso celebrar a África que me põe de pé e cabeça erguida

 

Nesse Dia da África andei pensando nas várias “áfricas”, que passamos a estabelecer a partir da nossa conexão histórica com esse continente. Tem aquela que se recusa a aceitar a generalização, afinal estamos falando de um território ocupado por milhares de povos com suas diferentes culturas, diversas conquistas e divergentes desafios.

Tem aquela África que rejeitamos pereptoriamente: a do estereótipo “tribal”, de “safári”, “atrasada”,  que uma indústria cultural descomprometida e presa a um pensamento colonizador e racista teima em reiterar.

Tem a África pós colonialismos, com estágios de reconstrução em vários níveis como os das grandes cidades da África do Sul, Angola e outros países. Tem aquela ainda às voltas com a tentativa de superar os séculos de colonização e exploração realizadas pelas grandes potencias mundiais.

Mas a África que hoje falou mais forte em meus pensamentos foi  a simbólica. É ela que me embala em dias tristes como esse em que estou vivendo a ressaca de mais um furor da tempestade política que se abateu sobre  o Brasil.

Nesses momentos, navegando aqui e ali em rede social, tenho me deparado com questões que nos remetem a toda a estrutura de formação da nação brasileira ainda às voltas com as feridas de um modelo extremamente violento. Não dá para falar de qualquer tipo de problema tupiniquim sem lembrar da escravidão de africanos e seus descendentes, ou seja, minha família, meus ancestrais.

Não é apenas uma “prisão no passado” como os tietes da “democracia real” repetem como um mantra. É curioso como alguns insistem em discutir questões étnico-raciais como se fosse algo tão trivial como uma partida de futebol.

Não se trata de um Ba-Vi ou um Fla-Flu entre quem colonizou e quem foi colonizado. O buraco é muito mais embaixo e a dívida reúne muito mais de sangue, suor e lágrimas do que as tentativas de traduzir a escravidão numa leitura bem comportada como na novela Escrava Isaura. Desculpem, mas a coisa caminha bem mais para aquele clip de Emicida, Boa Esperança, que vou compartilhar ao fim desse texto.  

Eu, descendente de africanas e africanos, volta e meia me sinto completamente “estrangeira” em meu país. O racismo, em suas várias facetas, truques e máscaras faz questão de lembrar que nós, negros,  não somos cidadãos brasileiros É como se fóssemos intrusos, problemas com os quais os quase-brancos precisam lidar se saímos do lugar que nos colocaram.

Nós somos tratados como o efeito colateral de uma estratégia que eles precisaram usar e que ao fim e ao cabo não necessitaram mais se preocupar. Sem a exploração legal das vidas negras – acabada com uma lei de dois artigos promulgada há 129 anos, mas que não sanou praticamente nada- que sigamos por nossa própria conta.

O cotidiano de uma família escravocrata brasileira

Na questão das ações afirmativas no ensino superior, por exemplo, o debate ficou preso no eixo “que sentido tem em dar privilégios a um determinado segmento?”.  Privilégio? É para rir , querido quase-branco? A universidade pública é tão sua como minha. A diferença é que passaram séculos tentando nos fazer acreditar de outra forma.

A cada negação de um direito, como o de educação em condições iguais ou ataque racista, essa “África simbólica” para mim se torna plausível e um alento. Ela é, de alguma forma, uma terra a qual pertenço sem nenhum tipo de “se”, “talvez”, “pela metade”.

Nessa terra africana que carrego comigo de várias formas, minha pele, meu cabelo, meu jeito de andar, falar, celebrar e rezar não tem meios termos ou poréns. Nela eu me sinto pessoa humana com todas as minhas possibilidades.

Essa certeza é que me encheu de calor nas vezes que recebi de volta o sorriso de africanos, afro-latinos-americanos, afro-caribenhos ou afro-norte-americanos. Aquela  troca de olhares do reconhecimento de que temos algum tipo de conexão é algo consolador e capaz de trazer esperança. É  essa África que hoje decidi celebrar porque me  liberta das dores da realidade e me faz bem mais forte.

Em tempo: Por que hoje é Dia da África:   Em 1963, 32 chefes de estado de países africanos se encontraram na Etiópia para debater caminhos contra o colonialismo e o apertheid. Em 1973, a ONU instituiu essa data como o Dia da África ou Dia da Libertação Africana. Países que possuem forte herança de povos africanos como o Brasil também passaram a celebrar a data.    

Aqui o clipe de Emicida que faz pensar em muita coisa. É uma boa aula de história sobre escravidão e seus desdobramentos.

 

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Escritor

Nasci em Cachoeira no recôncavo; cresci em Iaçu na Chapada Diamantina e há 24 anos vivo em Salvador. Transito, portanto, em três das áreas mais charmosas da Bahia. Sou jornalista, doutora em antropologia e mestra em estudos étnicos e africanos.

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