Colunistas,

Salvador Cinematográfica

Hugo Mansur

Existem muitos modos de se conhecer um lugar. Abstratamente, lendo um livro, vendo um filme, acompanhando uma novela, admirando uma fotografia, curtindo uma música, ouvindo as histórias de quem por lá já passou. In loco, também são muitas as possibilidades. Ao chegar numa cidade adquirir um jornal diário é um jeito bem estratégico de se iniciar uma jornada mais profunda, e assim acessar para além dos pontos turísticos.

Nos tempos que correm, há quem consiga, por exemplo, gerenciar geograficamente uma cidade por meio desses modernosos aplicativos de mapas digitais, de games, de serviços de transportes, de dicas de restaurante e até de relacionamentos. De maneira alternativa, e pela capacidade de domínio destas ferramentas, não estranhe se alguém relatar apego ao espaço por meio do jogo eletrônico Pokémon GO, que reproduz, fidedignamente, na tela do celular, toda geografia à volta. Jogando, o usuário se relaciona de modo singular, marcando sua experiência ginásio a ginásio, praça a praça, rua a rua.

Compartilharei com a Flor de Dendê meu método favorito para conhecer mais que as paisagens dos cartões postais. Técnica que utilizo para me relacionar com a capital onde nasci e me criei, cidade que considero vocacionada para cena cinematográfica, porque assim, faço dela também uma personagem em minha vida e não apenas meu lugar de trânsito. Salvador, cidade da Bahia, do celeiro de cenários escondidos. A visitação pelas locações do cinema baiano mescla cultura cinematográfica com novos meios de experimentar a cidade, seus espaços e sua memória. Elejo aqui dois horizontes soteropolitanos que ganharam a telona com toda exuberância que a cidade oferece também fora das salas de cinema: Rua Ruy Barbosa e Praia do Cantagalo.

Rua Ruy Barbosa, Centro Histórico de Salvador

Demorou para acontecer, mas aconteceu logo em dose dupla. Duas obras recentes do cinema local criaram lindas cenas na Ruy Barbosa. Em Trampolim do Forte, os meninos capitães passam apuros e sofrem perseguição que tem desfecho no meio da Ruy Barbosa, numa cena valorosa para o filme.

Veja o trailer de Trampolim do Forte, de João Rodrigo Mattos, 2014

Já a escolha de Depois da Chuva é oferecer uma Ruy Barbosa arranha-céu, exibindo toda grandiosidade arquitetônica dos antigos edifícios, uma mescla da Salvador histórica e da Salvador antiga-moderna.

Confira o trailer de Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes, 2013

Ser uma reta perpendicular ao pôr do sol na Baía que liga a Praça Castro Alves à Ladeira da Praça faz da Rua Ruy Barbosa nossa rua mais cinematográfica. Rua dos Sebos, das repartições públicas, dos antiquários, dos motéis baratos, da mais famosa casa de show erótico do Centro; rua da brisa ininterrupta, do atalho das travestis moradoras do último castelo da região, da fila do antigo Cine Tamoio; rua berço do menino poeta Marlon Marcos, abrigo dos gatos e cães de rua do Centro Histórico; rua da famosa farmácia de manipulação; rua que começa com um painel de arte assinado por Carybé na lateral do edifício Bráulio Xavier. Assim é a Rua Ruy Barbosa, importante rota para o povo de santo dos fundantes terreiros da Barroquinha.

“A atual Rua Rui Barbosa primitivamente foi um caminho que bordejava a primeira cerca, na crista de uma longa rampa que chegava à baixada arborizada e, mais além, ao pântano da Barroquinha. Por isso, quando foi urbanizada na época da construção da segunda muralha, passou a ser conhecida como Rua do Brejo, só depois como Rua dos Capitães” (Renato da Silveira, O candomblé da Barroquinha: processo de constituição do primeiro terreiro baiano de keto).

Praia do Cantagalo. Foto: Internet livre

Paralela marítima a Rua Barão de Cotegipe, a Praia do Cantagalo, Calçada, é conhecida como o Porto da Barra da Cidade Baixa. Generosa faixa de areia, em marés baixas, a praia portuária garante vista panorâmica da divisão das cidades alta e baixa, cenário perfeito para o longa-metragem de estreia de Sérgio Machado.

Mar tranquilo de águas quentes e cintilante esverdeado. Lá as personagens do triângulo Alice Braga, Wagner Moura e Lázaro Ramos se refugiam para uma belíssima cena de diálogos, silêncios e de banho de mar.

Veja o trailer de Cidade Baixa, de Sérgio Machado, 2005

Assistamos o cinema da Bahia, façamos dele nosso guia de encontro com os deuses e os diabos nesta terra do sol.

Hugo Mansur é jornalista e mestrando em Estudos Étnicos e Africanos pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia (Pós Afro/FFCH/Ufba) 

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01 comentário

Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

1 comentário

Alberto Freire

Ótimo texto. Escolheu dois locais importantes e fora dos guias tradicionais.

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