Mandacaru,

São João na roça

Para quem acha que passa todos os anos as festas em comemoração a São João na roça, enquanto se divertem ao som de grandes bandas em grandes praças ou até das pequenas bandas em pequenas praças não faz ideia do que é um São João típico na roça de verdade. Este ano eu tive a experiência de pegar o caminho da roça, literalmente e decidi registrar aqui para convidá-los a não deixar de viver o momento. No início tudo parece que vai ser sem graça até que você se lembra da músico “Riacho do Navio”, do mestre Luiz Gonzaga em que diz “sem rádio e sem notícia das terras civilizadas”. Ok! Tínhamos rádio, onde só ouvíamos forró; tínhamos carros, que só foram usados para chegar e sair do local, além de buscar palma para alimentar o gado; mas não tínhamos sinal de celular e isso já ajuda muito a viver tudo o que a roça tem a oferecer. Também tinha uma televisão, que foi ligada duas vezes por mais ou menos umas duas horas durante três dias.

O local fica a 12km da cidade de Ruy Barbosa, no interior da Bahia, mas já faz parte do município vizinho de Itaberaba. A Fazenda Cedro, leva o nome graças a três pés de Cedro que nasceram entrelaçados na frente da sede e pertenceu a Ary Rebouças Ribeiro, que faleceu em 2004 deixando as terras para os filhos. Nelson (Teco ou Barão), Alício (Chico), Alírio, Arísio, Iraci e Aricê estão sempre se reunindo no local junto com companheiros, filhos, sobrinhos e amigos, da mesma forma que aconteceu no São João de 2017. Antes de começar os relatos, agradeço o convite e a experiência.

1º dia:

O lugar é encantador! Uma subidinha de uma ladeira que chega no topo de um pequeno morro onde fica a casa e basta olhar para trás para ter uma das vistas mais belas que se possa imaginar. A família é inteira animada. Nelson usa chapéu de couro, Iraci está sempre a cozinhar. Bolos, canjicas, cuscuz, licores, milhos, amendoins… uma mesa farta e ainda não era tudo. Longe do rio, algumas cisternas e tanques mantém o lugar. No início da noite, junto com o frio junino chega a fogueira acesa por Alírio e o filho Mateus, com uma técnica rápida e fácil: uma latinha aberta, com álcool ou querosene dentro é colocada por debaixo da madeira e acesa. Em poucos minutos já tinha cheirinho de São João. Longe se via outra fazenda também a comemorar com os famosos fogos juninos e em resposta, a família Rebouças Ribeiro iniciou os estouros da Fazenda Cedro também.

2º dia:

Nada como café da manhã na roça: beiju, café quente, um solzinho para esquentar o frio, uma caminhada entre as árvores frutíferas que, por incrível que pareça, quase todas possuíam frutas em épocas não comuns. A família prospera, mantém uma fazenda próspera. Depois do café a preparação para um dos churrascos mais deliciosos da minha vida. Íris, a esposa de Chico, junto com Jussara, esposa de Teco, e Iraci preparam os complementos, enquanto Chico me ensina como cortar e salgar uma boa picanha. “Não pode deixar ela descongelar inteira e espessura é você quem escolhe”, explicava enquanto cortava. Lá fora, Alírio mantinha a fogueira acesa junto com o moço mais divertido de toda a região, seu Raimundo, o Bigode. Enquanto Álvaro e Maria DoCarmo, filho e esposa de Alírio, arrumavam mesa e cadeira. Ninguém parado além de mim babando toda aquela comunhão familiar, em pleno São João, no meio da roça. No início da noite mais fogueira, mais história dos cinco irmãos presentes sobre como era a vida ali durante a infância: bichos, lendas, que seguem toda a mata que rodeia o local. Me ousei a entrar nela, não demorei a querer sair depois de todas as histórias! A fazenda da frente voltou a mandar o sinal dos fogos e de cá a família Rebouças Ribeiro sempre respondia.

3º dia:

O último dia. Depois de uma noite de histórias familiares e de terror, depois do frio, era hora de tomar café e preparar o almoço porque a tarde serviria para irmos embora. Depois de todo o forró, de todo aconchego, da fogueira queimar, dos fogos a responder os vizinhos, da família divertida, unida, sentada na porta da casa, depois dos feijões maravilhosos, dos bodes na brasa e cozidos, dos bolos maravilhosos, depois das pessoas que fazem do local a coisa mais viva, eu entendi que São João na roça é muito além de saudar o querido santo nordestino, é reunir amor numa casa baixinha no meio da mata, com dois cavalos (Robinho e Neymar) e algum gado, numa rede debaixo do pé de cajá ou sentados, sempre sentados a compartilhar momento e amor na frente da casa, cenário da formação da família. Viva São João! Viva seu Ari! Viva Bigode e os Irmãos Bacaninhas! Viva São João na roça!

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Escritor

Susana Rebouças, 23 anos. Graduada em Comunicação com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Jornalista da Flor de Dendê.

3 Comentários

flordedende.com.br

Parabéns a grande jornalista Suzana Rebouças, por ter feito essa grande omenagem e por ter nos dado a honra de ter passado o São João com nossa familia na Fazenda Cedro.
Na oportunidade vamos deixar desde já o convite para o ano quem juntar mais uma vez com você e mais alguns amigos e podemos fazer um São João ainda melhor com muito licor, milho assado, bolo e muito churrasco e o forro para animação.

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Susana Rebouças

A Flor de Dendê que agradece a receptividade e linda história da sua família, Nelson! 🙂

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Elisa Reichmannr

Adorei!! <3

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