Agua de Chocalho, Cultura,

Sobre Albergaria, saudade e o 2 de Julho

Foto: Elói Corrêa | Ag. A Tarde |30/ 5/ 2008

Hoje bateu uma saudade enorme de Roberto Albergaria, um dos melhores amigos que o jornalismo me deu e deixou esse plano no início da tarde do triste 3 de julho de 2015.  Foi um dia depois da festa que ele mais gostava: o Dia da Independência, principalmente por causa dos caboclos.

Assim como duas outras figuras que adoravam essa festa e também já partiram- o professor-doutor Ubiratan Castro de Araújo e a presidente do IGHB, Consuelo Pondé-  Albergaria era um entusiasta da celebração. Gostava sobretudo da característica meio anarquista e irreverente que o cortejo possui, embolando no mesmo espaço comemoração cívica, protesto e o culto aos caboclos.

Era especialista em antropologia geral e podia falar sobre qualquer assunto com propriedade.Não me lembro de tema que ele não tivesse algo para dizer de forma precisa e coerente. Mas nem todo mundo entendia sua tagarelice douta. Problema dessas figuras, porque ele nunca se importou com críticas. Nem mesmo adotava aquele tipo de indiferença que, na verdade, disfarça a vaidade ferida. Ele apenas ria com um tom que parecia de personagem de desenho animado.

Mas Albergaria conhecia os cânones dos estudos antropológicos como poucos. Em uma conversa sobre incômodo no elevador, era capaz de citar de cabeça os detalhes do conceito de bola proxêmica de Edward Hall e muitos outros.

Albergaria com a sua coleção de padilhas. Foto: Xando Pereira | Ag. A Tarde | 14/11/2006.

Douta irreverência

Conheci o doutor em antropologia pela Universidade de Paris IV, a Diderot, como repórter e o contato foi se estreitando muito mais pelo telefone do que pessoalmente. No início eu ficava assustada com sua sinceridade cortante, mas depois a fui entendendo, principalmente um dia quando ele me disse: “é porque com a antropologia eu aprendi a conhecer a alma humana”.

E como conhecia! Principalmente aquelas carregadas de “moral de jegue” como ele chamava uma categoria de especialistas em hipocrisia nos mais variados graus.  Professor universitário, gaiato por opção, como gostava de reiterar, era de uma inteligência assustadora e voraz.

Albergaria gostava de temas ligados às culturas populares como festas públicas nos moldes da celebrada ontem. Foi uma das pessoas que me ajudou muito na minha pesquisa para o doutorado que estou batalhando para concluir.

Aliás só fui fazer mestrado depois que ele me deu uma “pagação” quando eu tive um probleminha chato de saúde e que tinha um pouquinho de interferência do meu desconforto no campo profissional. Albergaria, de alguma forma, me levou a me reapaixonar pelo jornalismo e acendeu meu gosto pela antropologia e questões de memória.

Não digo que guardo por ele um carinho de pai, pois acho que se escutasse um negócio desses me daria uma das maiores baixas de todos os tempos, pois tinha suas próprias ideias sobre as bases de afeto paterno ou materno. Tenho, portanto, um amor de afilhada e admiração eterna por sua generosidade.

Muitas vezes fui testemunha de sua preocupação com pessoas de quem não viria nenhum tipo de reciprocidade se ele precisasse. Mas Albergaria fazia questão de ajudar sem esperar nada em troca . Era extremamente solidário embora odiasse que outras pessoas soubessem disso, inclusive, às vezes, o próprio agraciado com o seu auxílio.

Professor-abelhudo

Foi com Albergaria que eu aprendi muito sobre o poder revolucionário do riso e da necessidade de procurar melhorar o quanto fosse possível, em todas as minhas limitações, no campo do conhecimento. O professor amava livros e também ensinar. Fora da sala de aula era capaz de passar uma ou duas horas ao telefone explicando um conceito.

No último ano antes de partir, passamos a nos falar quase que diariamente. Foi um período em  que eu tinha voltado para a reportagem em A Tarde, portanto estava com um pouco mais de tempo.

As conversas giravam em torno de religiões. Como eu ria, além de aprender muito. Foi em uma dessas que ele me disse que já não era para chamá-lo de ateu, mas sim de herege.

-Por que ateísmo não tem imaginação, minha filha, justificou.

Albergaria adorava  Exu, caboclos e padilhas. Dessas últimas mantinha uma coleção a partir de peças que adquiria em São Joaquim. Foi por conta dessa coleção que um dia me ligou querendo que eu desse um jeito de dizer onde ele poderia achar um sofá vermelho para colocar na sala em que elas ficavam. Eu o mandei para uma loja e depois ele me deu um escracho, pois disse que a tal tinha produtos que custavam os olhos da cara.

2 de Julho

Ontem seria um dia em que eu ligaria para comentar o 2 de Julho e ouvir uma de suas histórias maravilhosas sobre a data. Em uma delas me contou de um plano que achava que seduziria, tranquilamente, o professor Paulo da Costa Lima, na época à frente da Fundação Gregório de Matos, envolvida nos festejos pelo lado da prefeitura, para depois chegar à parte mais difícil: convencer a professora Consuelo Pondé, que presidia o IGHB, instituição que é a guardiã da festa.

Albergaria queria fazer duas réplicas das estátuas dos caboclos para expor no Center Lapa e movimentar o espaço com várias atividades, mas, no dia do desfile, ele queria dar um tom mais pop ao cortejo. A principal ação seria a materialização dos caboclos com Jacaré, ex- É o Tchan, e  a cantora Carla Cristina, que foi vocalista de As Meninas na época do hit coqueloche Ximbom Bombom.

Veja os vídeos com as performances de Carla e Jacaré, na época de As meninas e É o Tchan.

 

Infelizmente, embora o professor Paulo da Costa Lima, segundo ele, tenha ficado empolgado, o assunto esfriou antes do processo de convencimento da professora Consuelo, que seria a fase ainda mais hilária. Mas Albergaria nessas horas parecia um menino. Por mais absurda que fosse a questão, ele defendia que era possível.

Saudade é mesmo um negócio meio estranho. É dolorido, mas deixa um rastro de doçura e, nesse caso, um sorriso de canto de boca para lembrar das sonoras gargalhadas do professor.

 

 

 

 

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Escritor

Nasci em Cachoeira no recôncavo; cresci em Iaçu na Chapada Diamantina e há 24 anos vivo em Salvador. Transito, portanto, em três das áreas mais charmosas da Bahia. Sou jornalista, doutora em antropologia e mestra em estudos étnicos e africanos.

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