Colunistas,

Sobre gavetas e fascismo

Rosiane Rodrigues

Não é todo dia que a gente remexe nas gavetas… Mas, quando as reviramos, encontramos coisas que nos surpreende. Pois é. Foi mais ou menos assim que me deparei com este texto, escrito há seis anos, sobre a atuação política dos deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano. Lembro que na época, vários colegas e amigos me disseram que eu estava ‘carregando nas tintas’, uma vez que nenhum dos dois tinha projetos sérios de ocupação e ascensão ao poder. Para muitos naquele momento, as declarações fascistas de Bolsonaro e fundamentalistas do Feliciano eram ‘risíveis’ e nem poderiam ser consideradas com qualquer tipo de preocupação ‘séria’.

Este artigo foi escrito logo após minha chegada de Israel – onde eu e uma turma de 30 latino-americanos – fizemos um curso de imersão sobre os Altos Estudos do Holocausto, no Museu Yad Vashen. Minha escrita nasceu na esteira das primeiras declarações fascistas do ‘mito’ e quando a bancada evangélica ainda não era a maior do Congresso Nacional – ou, pelo menos, quando as preocupações com os seus avanços ainda era coisa de gente ‘com mania de fantasmas’.

As declarações dos deputados me preocuparam profundamente, pois em muito se assemelhavam ao desenvolvimento do projeto nazifascista, na Alemanha dos anos 30. Sim. A ascensão ao poder da SS nazista, o Holocausto e seus desdobramentos foram possíveis porque engendrados por cerca de 80 anos – tempo necessário para se desenvolver e consolidar-se.

Meu horror foi considerar que um novo projeto (bélico, excludente, racista e discriminatório) estava em andamento e que, ao contrário dos primeiros teóricos do nazifascismo (seus operadores e até o Fuhrer) que não dispunham de telefone celular, rede mundial de computadores, televisão e, muito menos, mídia global, este novo modelo ‘fascista tupiniquim’ poderia capilarizar-se rapidamente na sociedade a partir dessas novas tecnologias. De alguma forma, hoje, estamos lidando com os resultados. De minha parte – e também de tantas outras pessoas que vêm refletindo sobre o avanço do fascismo e do fundamentalismo religioso no Brasil – tenho a dizer que: a gente tem tentado avisar. E não é de agora.

 

Para bem da verdade…(*)

Que me perdoem os movimentos negros, os libertários e revolucionários. Mas os deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano não são racistas. Na verdade, eles precisariam melhorar muito para isso.

Racista é alguém que recebe em sua casa o coleguinha negro da filha, mas passou a vida toda dizendo para a menina que é preciso “clarear a família”. É aquele que nega a discriminação racial, acha as cotas uma aberração jurídica e quando é perguntado sobre a sua cor, que culturalmente no Brasil define a identidade e a origem do vivente, fica sem saber como classificar aquele tom “de burro quando foge” e não sabe se é preto, mulato, marrom-bombom, mameluco, indígena ou japonês. E se convence que é branco.

O racista médio, naturalizado pela sociedade brasileira, é neto ou bisneto de “gente de cor”, assume que tem um “pezinho na senzala”, mas acha que “macumba é coisa de preto” e que um negro correndo na rua, necessariamente, é suspeito. Em resumo, é um alienado, homogenizado pelas políticas eugenistas que assolam o Brasil há mais de 200 anos.

Não. Com certeza os deputados Bolsonaro e Marco Feliciano não são racistas. Eles estão num patamar em que o adjetivo foi largamente superado. O racista brasileiro, aquele que é e não tem ideia do que isso seja, não teria o requinte intelectual de recusar-se a ser operado por um médico cotista, como disse Jair Bolsonaro em entrevista publicada por vários jornais do país. Imagina a cena: o cara chega no hospital público, entre a vida e a morte, todo estropiado, infartado, mas se recusa a ser operado pelo médico. Seja ele preto ou índio.

Tenho plena convicção que mesmo um racista empedernido, forjado num país em que a discriminação racial é travestida por preconceito social e enxerga a violência contra pretos pobres como uma forma enérgica de retirar da sociedade aqueles que por hábito são ladrões, não teria o requinte teológico de afirmar que as mazelas do continente africano – e de todos os seus descendentes – deriva de uma maldição lançada por Noé contra seu neto. Essa afirmação do pastor (?) Marco Feliciano, hoje deputado federal pelo PSC, também publicada em dezenas de veículos de comunicação do Brasil revela a face obscura de algo que é, ao mesmo tempo, anterior e posterior ao racismo.

Observem que nas frases dos nossos nobres parlamentares são negadas qualquer possibilidade de ascensão dos negros (já que um médico ou um piloto de avião que acessem o ensino universitário através das cotas, não são dignos ou capazes de servir ao deputado Bolsonaro) e que esta condição de desigualdade entre o continente africano e o resto do mundo não é o resultado da política de exploração e expropriação da África pela Europa, mas está centrada em uma explicação metafísica: a maldição que atravessou os séculos e que por sua carga e peso é a característica primeira de seu povo.

Os recursos do “militar-ditador” e do “religioso-fundamentalista” podem ser diferentes, mas a base do discurso e o poder de convecimento que eles tem, só foram, digamos, atualizados. As comunidades judaicas, a custa de milhões de vidas, precisaram entender bem como se dá esse processo..

Deformação

Bolsonaro e Feliciano atingiram um patamar no qual só podem ser classificados como ideólogos da hierarquização social e política das pessoas. Em suas mentes pequenas e deformadas eles se consideram detentores de um poder branco, puro, algo angelical.

Eles estão alinhados com uma vasta lista de políticos, professores, pensadores, jornalistas e artistas que, completamente cônscios de seus papeis de formadores de opinião e consciências, perpetuam e propagam as mesmas linhas teóricas da ideologia que dizimou milhares de vidas humanas a menos de um século. Em bom português, os deputados Bolsonaro e Feliciano são os nossos neonazistas tupiniquins.

Será que o próximo passo dessa dupla é a fundação de uma frente político-religiosa para manter a pureza da sociedade e a castidade da família, livrando o país dos pretos, homossexuais, pais de santo e amaldiçoados (o que na verdade são a mesma coisa)? Será que Bolsonaro e Feliciano representam legitimamente uma parcela da população que verdadeiramente acredita nessas afirmações?

Será que os 500 anos de negação do racismo estrutural que esculpe mentes e corações brasileiros são agora solo fértil para que presenciemos bestialidades como essas? Se esse texto faz você lembrar do início da ideologia nazista na Alemanha e, logo em seguida, Europa, não é mera coincidência. É a história que, seguindo seu curso natural, se repete.

(*) Uma primeira versão deste artigo foi originalmente publicada no Afropress,  em abril de 2011.

 

Rosiane Rodrigues é jornalista e antropóloga, pesquisadora do Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (INEAC/UFF) e do Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas (NUFEP/UFF).

 

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Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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