Cultura,

Sobre o inexprimível caminho da vida  

Especial

Itamar Vieira Junior

“Eu tenho um sonho, um desejo, uma necessidade, uma urgência, quase uma obsessão”. É assim que a protagonista de O indizível sentido do amor (Patuá, 2017), último romance de Rosângela Vieira Rocha, inicia sua narrativa enquanto se prepara para uma viagem a Portugal. O objetivo dessa travessia é o encontro de um antigo amigo de José, seu marido, morto há pouco tempo, no intuito de obter informações que preencham lacunas de uma história sobre a qual não falaram: o tempo em que ele passou no cárcere durante a ditadura militar que governou o país entre os anos de 1964 e 1985. Esse amigo a ser encontrado é ninguém menos que Alípio de Freitas (1929-2017), ex-padre, jornalista e ativista de direitos civis, personagem importante da resistência à ditadura, um dos fundadores das Ligas Camponesas do Nordeste e dirigente do Partido Revolucionário dos Trabalhadores. Alípio, autor do livro de memórias Resistir é preciso, foi preso e torturado entre os anos de 1970 e 1979, período em que conheceu José, personagem-chave deste romance. É no limite entre a realidade e a ficção que a história irá transcorrer.

Alternando os capítulos entre os últimos dias de José, ao descobrir uma pneumonia e ser internado numa UTI de hospital, e as memórias de décadas de vida em comum, a narradora tece uma trama de lembranças que vai sendo transposta de maneira familiar. O fim e o começo da vida em comum de um casal, com as dificuldades impostas pelas circunstâncias, narrada de forma não linear, nos permite avançar de forma ágil sobre suas páginas.

Nas últimas décadas, algumas narrativas pungentes sobre memória e perda passaram a ocupar um lugar de destaque na literatura universal: A história de uma viúva, da estadunidense Joyce Carol Oates, onde a dor e a surpresa da autora ao perder o marido Raymond Smith – também de pneumonia e de forma abrupta – são matéria-prima para uma obra a que ninguém fica indiferente. Em O ano do pensamento mágico, da também estadunidense Joan Didion, o que vemos é o expurgo das dores desencadeadas pelas perdas do marido e também escritor John Gregory Dunne (1932-2003) e de sua única filha quase ao mesmo tempo, permitindo aos leitores um olhar aflitivo sobre a universalidade do luto.

Em seu novo livro, Rosângela Vieira tece, com maestria, a poesia de uma história de amor.  Foto: Divulgação

Neste romance, Rosângela discorre de forma direta sobre a perplexidade em que sua protagonista se vê, diante do quadro clínico complexo do seu marido, e que vai gradativamente se deteriorando. A partir de sentimentos antagônicos que costumam permear as narrativas do luto, a protagonista expõe as feridas abertas pela iminente perda do companheiro de mais de três décadas. Com extrema delicadeza e honestidade, em um dos momentos mais fortes do livro, parada em um sinal de trânsito e em frente a um outdoor com uma imagem de Nossa Senhora das Graças, ela faz um gesto de renúncia à remota possibilidade de cura para que seu companheiro, em agonia há tantos dias, finalmente tenha descanso.Um gesto que remete – guardada as devidas proporções – ao desfecho do roteiro de Amor (2012), do cineasta Michael Haneke. Difícil não se emocionar com as contenções da futura viúva, que de forma humana, mas sem deslizar para sentimentos clichês, faz com que cada capítulo do livro, ainda que a morte do companheiro se faça previsível, seja um terreno novo de sentimentos ambíguos a serem explorados. Como no trecho em que José, na UTI, pede que lhe cortem as unhas e ela se vê incapaz de realizar o ato: “Eu fiquei de lado, encostada na parede. Não teria dado conta de fazê-lo. Minhas mãos tremiam e eu não queria me aproximar fisicamente dele. Havia uma espécie de barreira que não conseguia atravessar”. As emoções, como as que se apresentam no trecho acima, nunca são as mesmas, nem se repetem, e a autora conduz com sensibilidade seu périplo pelo caminho inexorável da morte.

Sem as sentenças óbvias que nos vêm em narrativas que falam da viuvez e da morte, Rosângela exprime, a partir de situações e reflexões, aquilo que muitas vezes as palavras não são capazes de comunicar, como o próprio título indica. É através dos gestos e do próprio desenvolvimento da ação do romance que somos confrontados com o “indizível” dos afetos. “Tenho dúvidas se a linguagem tem capacidade de dar conta da morte. Há coisas que não podem ser ditas, não são verbalizáveis, situam-se sempre além das palavras, não possuem um espaço próprio”, diz em determinado momento. Após a morte do companheiro, a protagonista revive o sentimento que Didion em seu livro nomeia de “pensamento mágico”, quando ainda não está processada por completo a ausência. Quando vozes, presença e gestos cotidianos invadem a mente de forma espontânea, sabotando o presente com vivências passadas que, de tão etéreas, se desfazem logo a seguir, e tornam o luto uma experiência universal, mas também particular.

O indizível sentido do amor é um poderoso relato sobre sentimentos, sobre histórias que só revivemos nas lembranças, sobre a perda e a incapacidade de exprimir em palavras o vazio que a morte pode imprimir no curso da vida dos que sobrevivem.

Itamar Vieira Junior é escritor

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagem principal: Hermes e Afrodite, quadro de François-Joseph Navez
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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

1 comentário

Rosângela Vieira Rocha

Apreciei muito a sua resenha, Itamar Vieira Júnior. Você capta, com empatia e delicadeza, a essència deste romance, o que se encontra atrás dos muros altos erguidos . Obrigada!

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