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Sulivã Bispo estreia primeiro espetáculo solo

Andrea Magnoni/ Divulgação

O ator Sulivã Bispo irá estrear seu primeiro espetáculo solo nesta quinta-feira (20). Entre realidade e ficção, Kaiala conta a história de uma menina de 10 anos, iniciada no candomblé de tradição angola, que foi assassinada em um ato de intolerância religiosa, quando seu terreiro foi invadido por um grupo de evangélicos que quer por fim aos cultos de matriz africana. As temporadas serão no Espaço Cultural Barroquinha e no Teatro Gregório de Matos, às 19h.

Na narrativa, o ator se divide em três personagens: um irmão de santo da menina, a avó dela que também é sua ialorixá e a evangélica que lidera a invasão e é responsável pelo assassinato. “Essas três visões auxiliam na construção do relato que é  fragmentado em flashs e o público vai conhecendo um pouco da religião e da resistência do povo negro”, disse o diretor do espetáculo, Tiago Romero.

A trama é costurada pela função de cada personagem que conduz o discurso como a avó que traz o contexto religioso, sem esquecer a questão de gênero, e a evangélica que representa o preconceito e suas formas de expressão.

“A gente utiliza a divindade Kaiala, que é um inquice do candomblé angola, com uma metáfora para lidar com temas como a intolerância, resistência, preconceito e genocídio do povo negro”, disse o diretor.

Dentro da tradição bantu, Kaiala tem as águas como seu domínio. “Kaiala é um alerta do que não pode mais acontecer. É a grande força maternal, que cuida das cabeças e vem passar essa mensagem. Ela traz para a dramaturgia a visão de divindade de maneira muito bela e singela e faz um paralelo com esse momento tão triste que estamos vivendo de intolerância religiosa no país”, explica Sulivã.

A motivação para construção do espetáculo é resultado de uma inquietação pessoal. “Surge de uma revolta minha com relação a esse tema. O surto que adentrou a periferia de preconceito racial, a migração do povo de santo para a religião evangélica. Então me vi instigado a falar sobre isso”, contou o ator.

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Andrea Magnoni/ Divulgação

O texto inicial e a concepção são de Sulivã, mas também contou com colaboração de Tiago na finalização do texto final. “É um processo que parte da individualidade dele, mas que depois foi recebendo outros valores com as provocações que fui fazendo como diretor. Acabou ficando muito do texto inicial, sem contar a colaboração de Daniel Arcades que também desenvolveu a estrutura definitiva do texto”, disse Tiago.

Além de relatos e do que já tinha vivenciado, a construção do roteiro também teve inclusão de informações oriundas de documentários utilizados como fonte de pesquisa. No processo investigativo e de experimentação também foi necessário descobrir a intolerância sob a perspectiva de cada um dos envolvidos: o povo de santo, a criança, o evangélico.

O embrião do espetáculo foi uma atividade, no ano passado, do Ato de Quatro – um projeto da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (Ufba)– que consiste na criação de uma cena de 15 minutos. Nasceu com nome ‘Kaiala: um congado de um povo de santo’. “Fiz sem esperar grandes repercussões. Era novembro negro e nada na escola falava sobre o tema. Foi gente de candomblé assistir, gostei do resultado e quis continuar”, Sulivã.

No entanto, a primeira tentativa de crescer a produção de Kaiala não teve êxito, em mais uma oportunidade dentro da mesma instituição. “Não me surpreendi, porque é uma cena militante, mas não esmoreci”, contou Sulivã. A oportunidade veio com o edital do Programa Institucional de Bolsas de Experimentação Artística (PibiexA), em comemoração aos 70 anos da Ufba, quando foram selecionados.

Depois da descoberta do potencial da obra, foi decidido que não tinha com acabar com o final do projeto. Era preciso levar isso para o palco, era preciso fazer o povo de santo ver o espetáculo. E assim será.

E, pelo que parece, Sulivã deve permanecer por mais tempo nos palcos. Em paralelo, ele também atua em Frases de Mainha criado por Caio Cezar Oliveira e Erick Paz. O projeto contempla uma fanpage no facebook e um canal no youtube que só cresce em número de seguidores. Ele e o ator Thiago Almasy atuam em esquetes que mostram a rotina entre mãe e filho (Mainha e Junio) de forma irreverente e de grande identificação com o público baiano que cresceu ouvindo as mesmas expressões.

A fanpage do facebook já conta com 130.046 curtidas e o canal no youtube tem 22.257 inscritos até ontem. O sucesso pode levar a turma aos palcos no próximo ano. “Tem muita gente perguntando e estamos querendo. Ainda não tem nada decidido, mas, pelo que tudo indica, iremos”, contou Sulivã.

Veja o mais recente vídeo do Frases de Mainha

Serviço 

O que: Kaiala

Onde: Espaço Cultural da Barroquinha (20 a 23 de outubro) / Teatro Gregório de Matos (3 a 6 de novembro)

Horário: 19h

Valor: R$20,00 inteira | R$10,00 meia

Ficha Técnica 

Direção/cenografia: Thiago Romero

Orientação: Maurício Pedrosa

Figurino: Tina Melo

Iluminação: Alisson Sá

Coreografia: Nildinha Fonseca

Direção Musical: Luciano Bahia

Instrumentista: Sanara Rocha

Direção de Produção: Luiz Antônio
Sena Jr.

Produção Executiva: Bergson Nunes,
Ícaro Piton e Diego Moreno

Produção: DAGENTE PRODUÇÕES

Desing Gráfico: Diego Moreno

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Escritor

Soteropolitana até não poder mais, filha de Oxoguian e chocólatra. De formação, sou jornalista pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e especialista em Jornalismo Contemporâneo.

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