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Traficantes neopentecostais e a guerra religiosa

Carolina Rocha

As igrejas (neo)pentecostais têm sido acusadas de preconceito, violência, fundamentalismo e intolerância. A intolerância religiosa praticada contra as religiões de matriz africana não foi uma novidade trazida por esse segmento, entretanto, sua teologia tem levado às últimas consequências discursos e práticas de ódio e demonização.

Em 2006, o chefe do tráfico de um bairro da zona norte do Rio de Janeiro proibiu o funcionamento de todos os terreiros dentro das mais de 20 favelas sob seu domínio. Ele exibe no antebraço direito uma tatuagem com o nome Jesus Cristo e usa uma pistola banhada a ouro, com o nome de Jesus.  Apenas em uma das favelas foram fechadas dez “casas de santo” e abertas dezenas de pequenas igrejas, simultaneamente. Atualmente só resta um terreiro em atividade no local.

Em alguns casos, os pais de santo receberam avisos para saírem da favela e fecharem os terreiros. Em outros, são interrompidos de forma violenta durante as cerimônias religiosas, torturados e humilhados publicamente, diante do menor sinal de resistência. Existem relatos sobre um pai de santo que teria infartado após esses episódios, e falecido.

A mãe de santo X possui uma história singular: um grupo de traficantes armados chegou em sua casa e a levou com todos os seus “assentamentos de santo” (objetos sagrados onde são cultuados os orixás) para uma praia. Lá, lançaram todos os assentamentos ao mar. Eles queriam garantir que fossem devidamente “despachados” (jogados fora). A mãe de santo nunca mais reabriu seu terreiro. Com medo, alguns sacerdotes recomeçaram sua trajetória espiritual com novas “casas de santo”, em outras regiões mais distantes.

Os moradores contam que os traficantes justificam alguns assassinatos com a passagem bíblica de Romanos: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor”. Ou seja, a chamada “morte justa”, que é a sentença para um traidor, para alguém que “vacilou” no morro ou para os que são considerados inimigos, não é pecado.

Esta é a justificativa para poder matar, “sem ter a culpa do sangue na mão”, como dizem. As pessoas contam que ainda em 2006, alguns pastores começaram a fazer uma propaganda demonizadora das religiões afro-brasileiras.

Opressão

Dessa forma, tudo que acontecia de ruim e errado era identificado como culpa das casas de umbanda e candomblé que existiam no local. Se acontecesse uma invasão policial ou de facções rivais ou se morresse alguém, eles falavam que era porque tinham pessoas ligadas a macumba na favela.

Muita gente defende que existe uma ligação financeira entre o tráfico e algumas igrejas, mas também concordam que há outro fator que colabora com a evangelização dos criminosos: o apoio emocional e psicológico dado pelos pastores, somado à promessa de salvação.

Guiado pela nova fé religiosa, o traficante instalou alto- falantes nos becos para que os moradores ouvissem cultos e orações, diariamente, e mandou escrever a frase “Isso pertence a Jesus Cristo” no muro atrás da enorme piscina, construída para o lazer dos moradores. Os bailes funks também eram iniciados com cultos e shows de cantores gospel famosos. Nesses momentos, homens e mulheres eram dispostos em enormes filas e, após serem tocados na testa pelos pastores, caíam no chão em dominó para que seus corpos fossem “exorcizados”.

Hoje, para os moradores umbandistas e candomblecistas ainda é arriscado externar seus símbolos religiosos e a dificuldade para  abrir casas de santo na região é imensa. Berenice, moradora há 30 anos da comunidade, nunca lavou suas roupas brancas em casa, com medo de sofrer represálias ao pendurar as saias no varal da laje. No final de 2015, uma casa de umbanda foi invadida e completamente destruída. Mesmo não sendo possível identificar se existiu o envolvimento do tráfico ou de religiosos “evangélicos”, o episódio reacendeu o medo em toda a vizinhança.

Em outro conjunto de favelas, também na zona norte, o chefe do tráfico de drogas, sob orientação religiosa de uma igreja neopentecostal, mandou fechar dois terreiros em 2010. A resistência de um grupo de mulheres negras (mães de santo, parteiras, benzedeiras e moradoras locais) foi essencial para que outros terreiros não fossem impedidos de funcionar.

Entretanto, existe uma tensão religiosa na região: alguns terreiros, por exemplo, precisam pedir autorização para realizar festas. E, subindo umas das ruas principais de acesso é possível identificar que os muros das casas são pintados com mensagens bíblicas, como salmos e versículos que falam, principalmente, de proteção, libertação e salvação em Cristo.

 

carolina-rochaCarolina Rocha é mestre em história pela UFF e doutoranda em Sociologia no IESP/UERJ. Faz parte da Coordenadoria Experiências religiosas africanas e afro-brasileiras, racismo e intolerância religiosa, vinculada ao Laboratório de História das Experiências Religiosas (LHER-UFRJ). 

 

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03 comentários

Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

3 Comentários

Carlos Caetano

Oi Carolina . sou doutorando em Geografia pela Unicamp e pesquiso esse tema no espaço urbano de Salvador-Bahia. Vamos nos conectar? cacocaetano@gmail.com. What’s 71991054497.

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Carolina Rocha

Oi Carlos, meu email é carolinarocha18@gmail.com. Vai ser ótimo dialogar! Beijos

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Cid Seixas

O texto de Carolina nos mostra que o estado islâmico ainda não chegou ao Brasil, mas o radicalismo dos chamados evangélicos representa um risco tão forte à liberdade de culto quando o dos fundamentalistas islâmicos. Por enquanto a questão é mais forte no Rio mas o risco se estende à Bahia e a todo lugar.
Quando enfim poderemos viver as águas desta Baía de Todos os Santos?

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