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Iemanjá ensina quando recusa um presente

Maurício Rebouças

Dois de fevereiro. Quem mora em Salvador, especialmente no Rio Vermelho e entorno, pode constatar, com um pouco de poesia, que antes mesmo de abrir os olhos já se é despertado pelo aroma dos perfumes, das seivas de alfazema, das flores azuis e brancas. Se os olhos insistirem em dormir, os ouvidos reclamam ao corpo o barulho dos foguetes que explodem no céu. É a alvorada para anunciar o dia da grande mãe, dona do Orí, do equilíbrio e que faz morada nos mares e oceanos.

De manhã bem cedinho já se pode ver uma multidão descendo as ladeiras em direção à praia. Uns vem pela fé, outros nem tanto. Uns vem pela tradição, pelo sagrado e outros pela curtição, ou por tudo isso junto e misturado.  O povo chega em massa e de todos os lados. Nem precisa ser muito observador para ver comboios vindos dos interiores da Bahia.

A festa de Iemanjá é tão popular que mesmo os não adeptos do candomblé ou umbanda vêm reverenciar a senhora das águas salgadas. As reverências incluem flores, bolos confeitados, fios de contas, barquinhos de papel, imagens da sereia. Pedir e agradecer a Iemanjá reconfiguram-se em ofertar-lhe objetos simbólicos de seu agrado. Tudo vira uma grande festa que perpassa pela celebração na terra e pela aproximação com o sagrado na água.

Encorajado pela fé, quem consegue até pega um barquinho e vai bem distante para colocar seus presentes em águas mais profundas, pois se Iemanjá vive num palácio encantado no fundo mar, talvez essa seja uma forma de encurtar as distâncias com essa senhora.  Os que não pegam o barquinho têm a opção de ficar na praia ou de colocar seus presentes num balaio dito “principal” que é levado no final do dia para águas mais abertas.

Recusa

Diz o dito popular que “o que fica na areia é porque Iemanjá não quis e devolveu”. Parando para observar, muitos dos objetos que voltam para a areia são de plástico e por serem leves são facilmente arrastados pela deriva e ondas de volta à praia. Nessa lógica, o plástico é um candidato forte a ser recusado por minha senhora.

Objetos de plástico e de outros materiais que não sejam orgânicos demoram centenas de anos para serem degradados em ambiente natural além de ser um risco iminente para vida marinha. Um exemplo é a morte de tartarugas marinhas que confundem águas-vivas (seu alimento natural) com plástico na água. Ao ingerirem plástico, sua morte é uma sentença. Peixes, crustáceos, corais e aves marinhas também são afetados. Não é raro abrir o estômago de albatrozes e gaivotas que vivem em locais degradados e encontrar plástico.

É importante ressaltar que grande parte da poluição é provocada, na verdade, pelas latas de cerveja e copos descartáveis. Isso é uma escória de qualquer grande festa de rua. No final do Carnaval, por exemplo, a quantidade de latas de cerveja no fundo do mar é absurdamente grande. Sem falar nos impactos devido o despejo de esgoto urbano, o lixo sólido que vem do continente que são comuns o ano inteiro e que, por momento, eu não vou nem entrar no mérito.

Para dois de fevereiro desejo a todos muitas bênçãos, muito axé e que prestemos atenção no que os mais velhos dizem: “a essência dos presentes é o que importa”. Aí está um campo em que eu não me intrometo e nem tenho autoridade para isso, mas imagino que a seiva da alfazema derramada na água com o ofó (encantamento através da palavra), sem o potinho de vidro, não voltará à praia, jamais. Iemanjá sabe das coisas.

Salve dois de fevereiro. Salve Iemanjá.

 

Maurício Rebouças é oceanógrafo e mestrando na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Paraíba.

 

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Escritor

Especialistas das mais variadas áreas debatem temas interessantes para a reflexões sobre o nosso patrimônio cultural, especialmente o afro-sertanejo.

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